quarta-feira, 9 de outubro de 2013

                

O grande risco

De repente e se mais nada precisasse ser dito? Estava cansado de ter que argumentar as suas mil conclusões, de ter que dar desculpas sobre todos os acontecimentos. De repente começou a pensar nessa urgência da vida que exige sempre que ao encontrar alguém seja preciso dizer. De modo que as palavras saíam e saíam sem quase motivo. Preenchiam-se os espaços com medo de que o silêncio causasse qualquer mal-estar. Na verdade, vinha agora um sentimento de que recolher era preciso, obter um minuto qualquer, talvez alguns dias, talvez um ano em que se quedaria silêncio adentro, administrando todas as informações de fora. Que coisa estranha essa vida moderna em que nada era metabolizado, fazer, fazer, fazer como se fosse necessário sempre fazer. É, precisava mesmo de um silêncio momentâneo, estava exausto. Relembrou que seus momentos de epifania só aconteceram de fato quando não tivera que pensar. Os seus melhores contos vieram assim como de um rompante desse esquecimento da vida. Esquecia-se para só depois poder lembrar. Por exemplo, aquela crônica que fizera para o Jornal, tantas vezes aplaudida pela crítica, saiu de uma tarde em que não havia esperanças. Andando pela praça florida de repente se despertou para algo grande e bonito. Dera-se tempo. Ainda que não soubesse esperou para que seu corpo e espírito sozinhos construíssem juntos todas as palavras. Não precisou se esforçar, não precisou dizer, ou gritar. A urgência seca a gente, concluiu. Começou a pensar também sobre como é arriscado se libertar da fala. Pensava estar em constante risco com Marina, pensava que havia mesmo se arriscado quando pegara a menina dos braços de Roberto. Um bebê tão indefeso que nada tinha a ver nem com um nem com outro. Mas a verdade é que os maiores riscos que poderia correr, não estava nas ações, ao contrário. Era mais arriscado viver. Por exemplo, outro dia viu algumas pessoas que faziam uma aula de ioga ao ar livre, de repente teve medo. E se o chamassem? Verdadeiro risco seria de cabeça erguida ir lá se sentar junto com os outros para meditar. Entregar-se-ia às comparações alheias, se sujeitaria a uma possível vergonha, estaria nu num risco muito grande de ser ele mesmo. De resto, com as outras coisas e Marina se incluía nelas podia representar. A máscara do pai presente ou ausente o salvava. Talvez Marina nunca adivinhasse quem realmente era ele, ser humano desnudo. Talvez um dia se a chamasse para dançar um tango argentino com ele, ela descobrisse surpresa e amedrontada quem era ele. Do contrário, poderia vestir as suas máscaras e se mostrar forte ou fraco não importava, mas não ele. Isso dava segurança para ligar para ela e dizer que deveria ser perdoado. Se houvesse uma dança ele jamais teria essa coragem.  O risco, pensou, estava nesses instantes em que desprotegidos da máscara não dizíamos nem raciocinávamos. O risco mesmo não era ter contado para Marina sobre seu passado, nem o fato de ela ter saído de casa, talvez nunca mais voltasse, mas o risco mesmo era se mostrar para ela sem as máscaras. E, talvez só assim ela o perdoaria. Para tanto, deveria nascer de novo e de novo, tantas vezes quanto possível. Deveria ser mais forte que Deus. Que engraçado, só bem no íntimo Deus era desprovido de máscaras. Não esse Deus que as pessoas achavam conhecer. Mas aquele Deus para o qual choramos baixinho, confessos e entendidos de que ele também poderia cometer os mesmos erros. Risco mesmo não era escrever as críticas mais sórdidas para o Jornal, risco era ter a coragem de subverter a linguagem. Risco não era desenhar paisagens, mas conseguir com maestria pintar um quadro todo azul. As pessoas talvez pensassem, e até ele mesmo, que estavam constantemente correndo o risco de viver. Mas a verdade é que não vivam e logo não se arriscavam. Ir da casa para o trabalho, ir à padaria comprar o pão, acordar cedo e voltar tarde, talvez alguém o assaltasse? Talvez tivesse um acidente de trânsito? Nada disso era comparável com o risco de matar uma segunda-feira de trabalho sem motivo aparente. Risco era não se importar com as consequências dessas pequenas ações das quais não conseguíamos nos desprender. As grandes Revoluções aconteceram nessa ordem do entendimento, e não segurando cartazes em marcha pelas ruas da cidade. As grandes revoluções aconteceram antes de tudo na margem desse pensamento que era permitido fazer o contrário de uma segunda-feira de trabalho. Achou engraçado, talvez estivesse louco, ou talvez ele só estivesse arrumando desculpa para justificar as suas falhas.  Quem se importava? Queria correr o risco.

domingo, 6 de outubro de 2013

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Como eu teria sido?

Recebi duas ligações uma pela manhã e outra já no cair da tarde. Não posso dizer que uma me assustou menos que a outra, pois ambas me deixaram como que um gosto ruim na boca. E, no entanto, agora já com a noite densa me consumindo sinto como um prazer estranho. Finalmente um pouco de lucidez começa a entrar no meu espírito e eu sinto como se entendesse enfim. Talvez até um pouco mais do que isso, talvez agora eu compreenda que não poderei segurar com minhas próprias mãos os cursos do destino, e que não poderia, ter feito isso quando menina. É um sossego que me vem por não ser mais a responsável. O que sinto é uma espécie de liberdade como se não me coubesse mais ter todas as respostas. Isso facilita tudo.

O primeiro a ligar foi Roberto. No meio de sua interlocução de homem bruto, vi que era na verdade muito frágil. Permaneci a maior parte do tempo em silêncio. Dei a ele a possibilidade de falar o que quisesse em princípio porque não me interessava ouvi-lo. Mas depois fui foi tomada de certo amor por aquele tio a qual nunca me apeguei. Ele me disse: ‘Marina, você tem que entender que quando a gente é moço comete muitos erros’. ‘Eu mesmo quando tinha a sua idade fiz muitas besteiras, a pior delas talvez tenha sido essa que agora causou a bagunça toda em nossa família’. ‘Não venho e não quero o seu perdão, não porque não ache que mereça, mas porque não tenho o direito de pedi-lo, porque sei que se voltasse lá naqueles tempos faria tudo novamente’. Eu o escutava engolindo os soluços que me subiam até a garganta, as lágrimas me escorriam quase doces sem pedirem para sair. ‘Minha querida, eu não espero que você me entenda e passe a me tratar diferente do que tem sido até agora’. ‘Sei das dificuldades todas de André para te criar e fico contente dele ter dado conta de te transformar na mulher que você é hoje. Dá-me certo alívio, pois teve um tempo em que achei que ele não fosse dar conta’. Eu que depois de todas as revelações achei que Roberto na verdade nunca se importara, escutava todas aquelas palavras silenciada pela vida, pensando que talvez eu pudesse cometer os mesmos erros. A seu modo rude, ele me dava sinais de amor e cuidado. Um mistura de aprofundamentos que eu não compreendia ódio e gostar misturados. ‘Quero que você saiba que não justifico meus atos tentando fazer com que você venha a ser agora o que não pode mais. Quero que você saiba que não fiz pensando em você, em André, em ninguém. Em princípio quando se é jovem minha pequena se pensa é na gente mesmo’. Achei-o corajoso por assumir o seu egoísmo, vinha clara a imagem de um ser humano qualquer que agora entregava sem necessidade as suas fraquezas. Falei, ‘Roberto, não se preocupe com o que eu acho ou deixei de achar sobre a sua pessoa, já não tem mais importância, porque nada mudará naquilo que chamamos de família’. ‘Não espere que eu crie de um dia pro outro afeto por alguém que nunca tive’. Nessas palavras eu me igualava à sua rudeza como que para mostrar que fizéssemos o que fizéssemos, fossemos quem fossemos a peça fundamental que formava a nossa identidade vinha de outros tempos, guardada na genética encontrava-se o princípio que criação nenhuma abalaria. Ele falou por quase duas horas seguidas, contou detalhes sórdidos de sua vida, esmiuçou as suas desgraças, não sei se na ânsia de se fazer compreender, ou se na tentativa de me fazer ter pena dele. Eu como uma criança queria colo, talvez o olhar de mamãe me dizendo que ficaria tudo bem. Poderia depois de aquela conversação deitar de bruços na cama e chorar por horas a fio. Talvez não, estava exausta, todas as minhas energias psicológicas haviam sido sugadas. O que desejei por fim era não ter que pensar, era um vazio, um silêncio cósmico e transcendente que entrasse em mim e ocupasse a matéria que eu estava sendo. Como quando se bebe muito, e pode deixar o corpo seguir seu rumo sozinho. O que eu precisava na verdade não poderia colocar aqui, porque era grande e inexplicável. E depois tinha a pergunta, ‘E agora o que fazer de mim?’. Estava órfã de pai e de mãe. Passei toda a tarde tentando metabolizar essa primeira e tão pouco elucidativa conversa com Roberto. Quando já no cair da noite, liga André, já um tanto desesperado com meu sumiço inconsequente a seus olhos. Demorei a atendê-lo, ele deve ter ligado no mínimo umas três vezes antes que eu tomasse coragem, antes que eu tivesse forças, pois estava esgotada. Mas pensei que se fosse para passar por catarse como aquela que fosse tudo de uma vez, bebida em goles longos e aturdidos. ‘Marina, você não pode fazer isso comigo, lembre-se de que ainda sou seu pai’. Ouvi-lo falar isso me sacrificava. Senti pela primeira vez como se estivesse amputada de um braço. A palavra pai me deixava tonta, pela primeira vez a clareza de que eu estava sem uma parte do meu próprio corpo, havia perdido. Qualquer coisa dentro de mim havia ido embora, e sem o braço do pai tentava agarrar qualquer figura que outrora me lembrasse desse mito, quase o mito de Deus. Disse: ‘Pai... como ousa dizer pai?’. ‘Marina deixe de ser ridícula, sou e sempre serei o seu pai. Aconteça o que acontecer daqui pra frente nada muda isso’. Dei quase um grito abafado, sentia uma dor quase física, como se me tivessem serrando o braço e ninguém pudesse senão me olhar sendo desmembrada. Ele preocupou-se, ‘minha filha posso te ligar depois, estou vendo que está muito mal com toda essa história, te darei tempo de absorver tudo, sei que é muito para você. Estou muito triste também, mas talvez falte em você a sordidez da vida adulta, que em mim já foi tão pisoteada. Você é como uma flor que ainda desabrocha, nunca pegou vento forte como esse que lhe arrancasse as raízes como acontece agora’. Arrancando as raízes... que curioso, o escritor falava por André em palavras até bonitas, será que ele tinha mesmo a noção da extensão dessa dor? Será que ele sabia que a vida da gente não é um romance, uma performance artística? ‘Minha filha, quero que saiba que naquele momento, tomei a decisão em nome de muitas pessoas, e não só pensando em mim. A sua mãe me exigia muito, a sua avó me crucificava’. Num sobressalto eu disse, ‘não coloque o nome da minha mãe no meio dessa sujeira!’. Ele se assustou, ‘pois ela é tão culpada quanto eu, podia até se fazer de sonsa, fingindo não saber a origem de você criança, mas no fundo ela sempre soube’. ‘André, não ouse não me massacre mais do que você está fazendo, não me faça ter mais ódio de você do que aquele que já sinto agora dentro de mim. Não suje a imagem de mamãe que sofreu tanto com você. Pensa que não sei de suas traições com Matilde?’. ‘Marina, não misture as coisas, vamos tratar de um problema de cada vez. Não quero e nem posso me justificar com você, tem todo o direito de estar zangada. Mas não pense minha querida, que todos nós não somos humanos’. A verdade é que minha decepção maior talvez tenha sido exatamente essa a de descobrir que não havia pai e mãe perfeitos. A imagem de Deus estava quebrada. ‘André, porque exatamente me ligou se não quer perdão?’. ‘Quero que você volte pra casa minha querida, não espero que você me perdoe por telefone, isso só será construído no dia-a-dia, nós sentados na biblioteca, lendo juntos, ou desenhando como antigamente, lembra?’. De repente a figura do pai voltava segurando minha mão nas tardes de domingo com sorvete. Comecei a chorar copiosamente como se isso fosse ainda possível, porque ele estava fazendo isso comigo? Dava e tirava de mim o pai que era, arrancava meu braço e depois vinha com a linha de sutura tentando costurar tudo. ‘André, eu preciso ficar um tempo sozinha, além do que já tenho vinte e cinco anos, já estava na hora de ir morar sozinha. Tudo isso só me fez ver que agora preciso seguir minha vida longe de vocês’. ‘Marina, não faça isso comigo, logo agora que estou ficando velho, estou precisando de você’. Ah então era isso, o problema era que ELE ia ficar sozinho, estava cagando para o meu sofrimento, o problema era que ele estava velho e precisava de alguém para lhe trocar as fraldas. Senti um ódio repentino por aquela figura, e comecei a imaginar se tudo tivesse sido diferente, se a vida tivesse sido construída a partir de Roberto. Como eu teria sido? De que coisa gostaria? Qual seria o meu mundo? Seria mais eloquente, mas sincera, mais esperta?

Desligamos o telefone depois de um tempo tentando explicar os porquês de todas aquelas inexplicáveis situações da vida. Só agora vendo a lua clarear nessa noite sem vendo que acalmado um pouco o espírito, consigo colocar os dois irmãos no mesmo saco. Posso tirá-los ora um ora outro, olhar em cada um dos olhos e perceber o mesmo verde, e saber o mesmo rosto, posso ver o mesmo egoísmo que talvez nem me digam mais respeito. Por enquanto, quero apenas ficar aqui nessa noite inundada pela lua, sentada no terraço como se o amanhã não precisasse acontecer. Poderia ficar aqui talvez mais uns duzentos anos. Até lá outras atmosferas tenham nascido, e eu talvez me solucione, sem precisar tomar na verdade nenhuma solução.

domingo, 29 de setembro de 2013


                                   
Na cabeça de André, um parêntese para a divagação

A manhã o violentava. André acordou ainda meio sonso de ressaca, o sol ondulante e quente vibrava por entre as cortinas, fazendo-o perceber que já era tempo de levantar. Provavelmente seriam já umas duas da tarde. Tinha poucas forças, restou ali por uns minutos, como se não precisasse começar o dia, fazia tempo que relegara seu trabalho a segundo plano, faltava matéria prima, lia pouco, comia mal, dormia dias inteiros, como se não necessitasse, apenas. Se ao menos tivesse um trabalho no qual precisasse levantar bem cedo, se arrumar, e só voltar lá pelas seis da tarde. Sofreria menos, certamente. O trivial do dia é mais fácil quando o curso dos acontecimentos já foi traçado por outrem. É de um mecânico bonito esse ir e vir cumprindo horários, como se a única certeza exata fosse de que se desempenhou um dever muito importante ao fim do dia. Assim priva-se até o pensamento, e é mais fácil rir, e é mais fácil se emocionar, basta que te indiquem uma canção, um filme. A dor fica menor quando a ação precede a reflexão, que certamente nem existe. Mas nem fazia sentido pensar nessas questões, quando André nunca se afeiçoara a todas essas regras estabelecidas pela coletividade. No entanto, agora deitado e olhando para a parede branca do quarto, sentiu que seu desejo maior talvez fosse as amarras. Queria esse colo ao avesso, como quando se liga para a mãe em busca de consolo. Talvez precisasse ligar mesmo para a sua mãe, dizer a ela que tudo dera errado, que na verdade ela deveria era amar mais a Roberto, era ele o correto. Talvez ligasse e não dissesse nada e no silêncio ela já entendesse. Queria levantar, mas sentiu a garganta um pouco corroída, o corpo dolorido, um ardor nos olhos. Estava um pouco febril o corpo dava sinais de que a vida andava por caminhos errados. Mas não ficou triste, nem ao menos temeroso por conta dessa constatação. Ao contrário, estar doente o salvava, dava a ele a permissão de permanecer na cama. Caso alguém ligasse diria ‘hoje eu não irei, estou um pouco adoentado’ e ao telefone ouviria comentários como ‘fique bem’, ‘melhoras’, apenas isso já seria o suficiente para acalentar o seu espírito. Talvez ligasse pra Marina, o fato de estar doente poderia fazê-la ser mais condescendente com a situação. Poderia até aumentar um pouco mais a verdadeira gravidade da situação só para vê-la tendo pena dele. Dó, de longe o pior sentimento que se pode ter de alguém, já se suprime de antemão a capacidade resolutiva do outro. Mas não se importava, pois queria era resoluções prontas. Foi até a cozinha preparar um chá de erva cidreira, comeria umas torradas também. Talvez experimentasse uma antiga sensação de encanto que tivera a primeira vez que tomara chá de cidreira. Preparou o espírito para ao dar o primeiro gole receber aquele prazer infantil de outrora. Não pode, no entanto, a verdade é que não se pode experimentar vivenciar a mesma sensação uma segunda vez. Pois no meio, já há a memória do prazer absoluto, um parâmetro difícil de comparação. Pensou que deveriam ensinar essas coisas enquanto ainda se era menino, só assim as pessoas não viveriam a vida na espera de alcançar prazer nas mesmas coisas. Decidiu tentar ligar para Marina.

domingo, 22 de setembro de 2013

                               
O começo, com Roberto: 
Acordei decido a acabar com essa palhaçada toda. André agora deu pra se fingir de sonso, como se nada fosse responsabilidade dele. Usa desse distúrbio de personalidade pra acobertar que na verdade a ideia foi toda dele. Era ele que estava encurralado na vida, e eu tenho lá culpa se não conseguiu satisfazer a mulher? Coitada de Tereza teve que aguentar o encosto. Sempre achei que a vontade dela era tê-lo abandonado, ido viver a vida, uma moça tão bonita, tão inteligente, presa a um homem sem nenhuma perspectiva. Certamente quis deixá-lo, mas lá pelas tantas apareceu a menina, imediatamente o espírito maternal falou mais alto. A partir daquele momento, acho que não importava mais a Tereza servir ao marido, serviria na verdade à pequena. Finalmente uma família. E mamãe também levou um susto, a patota toda ficou feliz, por fim eu tinha era solucionado os problemas todos. E agora, vem André com essa história de ‘a culpa é toda sua’. Tenho que encontrar Marina e esclarecer essa história. A coitada deve estar achando que sou um monstro. Todos uns coitados, ou pelo menos se portam como tal, verdadeiro dramalhão. Uma choradeira, uma novela mexicana. Parecem ter um apego continuado pelo sofrimento. Só se sentem sadios se alguém os vir lamentando sobre a vida, ‘ó vida, ó céus’. Deus me livre! Eu aqui trabalhando o dia inteiro, ralando meu buxo nessa oficina de merda, e André lá fingindo-se de escritor. Ah, faça-me o favor. Quando ele disse pra mamãe que ia escrever livros, ela só faltou emoldurá-lo. Finalmente um de seus dois meninos daria certo na vida. Porque nesse mundo de hoje, trabalhar ficou pra segundo plano. Eu com quatorze anos já trabalhava. Agora basta que você se intitule estudante e já ganhou a vida. Venceu exatamente no que? Sei que mamãe até hoje manda dinheiro ás escondidas pra André, empresta sem cobrar juros, agora você pensa, um homem de quarenta anos. Tá explicado porque Marina é tão problemática, espelhou o pior lado, aliás, o que único que restou a ela. ‘Alma de artista’ e vê lá se artista faz alguma coisa. André acorda bebe um uísque digita umas bobagens na máquina, vai à casa de amigos, vagabundeia por aí o dia todo, e orgulha-se de dizer ter uma profissão.

Teve uma época que ainda meninos eu dei pra bater nele, essa coisa de ter a sensibilidade aflorada. ‘Na minha casa não!’. Agora já se viu homem dizendo que ia virar artista, todo mundo caçoando da gente ‘endireita esse corpo André, se disser pra mais alguém que vai virar pintor te dou uma surra!’, ‘tão falando por aí que você é viado, é verdade?’. Depois de velho ainda desconfiava, esse menino que não arrumava namorada, ficava enlouquecido. Mas depois apareceu Tereza. Antes mesmo de desejá-la, tive foi um alívio, ‘finalmente deu certo na vida’. E essa moça quase uma mulher, os seios já formados, tão durinhos por debaixo da seda, as pernas grossas num moreno aveludado, ‘não me deixe pecar, senhor, senão André nunca mais arranja mulher nenhuma’. Mais do que isso ela era uma das pessoas mais inteligentes que conheci, não sei o que via no meu irmão. Um Zé ninguém, que não abria a boca pra dizer nada. Um dia perguntei ‘o que você vê nesse menino, Tereza?’, ela olhou longamente para um cavalete que ele largara na sala. ‘As cores Roberto, as cores. Nunca vi ninguém que combina tão bem as cores. André não precisa dizer nada, os quadros se dizem por que a sensibilidade também impressiona’. ‘A sensibilidade também impressiona’ uma bobagem danada, todo mundo achando que era hipe, todo mundo achando que o mundo se resolvia com amor.  As mulheres começaram a procurar esse tipo, não era mais como na minha adolescência que bastava ser homem, trabalhar e ter um carro. Agora tinha que saber falar difícil, tinha que ter lido tal e tal livro, tinha que saber argumentar sobre política, cultura, arte. Uma danação. Acho que foi nessa época que comecei a me perder, o curso do tempo me largava com meu rock, o brilho da juventude apagava diante de toda informação necessária. Agora pra ser gente, tem que ir pra escola. Pois fiquem todos sabendo que a gente aprende muito mais com a vida. Não adianta ficar repetindo frases de filósofos se nunca pegou no batente, se nunca segurou uma enxada.

Agora também já não importa nada, até mamãe que sempre se afeiçoara mais a mim, coitado de André que pensava o contrário, renegava-me. Ligou há três dias e a única coisa que soube dizer foi ‘resolva essa embrulhada em que colocou todo mundo’, ‘tô com vontade de te dar a coça que nunca te dei’, ‘pequei por achar que você crescido se endireitaria’, ‘cansei de acobertar suas lambanças meu filho, você já tá cinquenta anos tenha decência de me privar dessa confusão, já não tenho mais idade’. A única verdade é que ela já não tinha mais idade, beirava os setenta e sete com um corpo em deterioração. Ao contrário, a cabeça ainda trabalhava a todo vapor, ligava pra gente esbravejando, organizava nossa vida, distribuía raciocínios, conselhos, desentendimentos. A única que se salvava do temperamento ranzinza adquirido com a idade era Marina, neta solitária. Deslumbrava-se com a pequena, fazia dela um espelho dos áureos tempos juvenis ‘Marina minha filha, você é tão parecida comigo’, eu pensava só se for pela personalidade impossível. Marina transferiu tudo pra mamãe, a avó que parecia ser mãe, mesmo com a presença de Matilde, mas isso é outra história um tanto quanto longa e nojenta. Nem eu teria tido essa coragem ...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

                                   

Perdi-me. No meio do caos, a infância. Quando era já mocinha voltando da escola, no caminho a surpresa. A névoa que desaparecia, tive consciência pela primeira vez. A consciência reflexiva de que eu era eu como parte do mundo. Mas então, se só agora, o que havia sido antes dos quatorze anos? Um sorriso de desconforto, o descobrimento. Esse momento foi mais forte que a primeira experiência de sexo, de morte, de relacionamento. Mais forte que mamãe morrendo. Por que eu não sendo eu aos sete anos não sabia de mamãe dentro de mim como parte fundadora, a experiência vinha de fora, e não de dentro. Senti como se a perda acontecesse num lugar distante, ainda que na minha casa, no meu café, no meu aconchego. Chorei muito, mas já grande, senti falta tardia, antes tinha o repugno, o não entendimento, uma mulher sem os seios. E depois lá pelos quinze a mãe que não teria na formatura, a ausência na noite de autógrafos. Só veio muito mais tarde, também a consciência de Deus. Os meus amigos, por exemplo, se orgulhavam de negar a existência do Divino. Se alguém perguntava ‘Você acredita em Deus? ’, a resposta óbvia, antes mesmo do que pensada ou sentida era um sonoro ‘NÃO’. Eu duvidava, porque a pergunta era um vitral com uma multiplicidade vasta de compreensões. Deus pra quem? A qual Deus se referia? O do padre, o do muçulmano  o do pastor? Deus era tão múltiplo quanto a pergunta ou a pessoa que interpretava a resposta. Logo dei pra dizer sim e não, para um questionamento nada pragmático, nada racional. Raciocinava-se sobre a experiência, o que não fazia sentido. A gente antecede o raciocínio, só os bobos não veem que a experiência primeira é isenta de teorizações. Ao beijar não se imagina colocando a língua lá dentro e sabendo dos movimentos próximos que devem ou não ser feitos. A experiência apenas, que se faz como preceito anterior. E Deus era a experiência anterior de modo que eu poderia dizer sim e não. O não para qualquer lógica sobre essa transcendência, tal como faziam as igrejas e o sim para o beijo. Comecei a me achar meio pecadora por misturar Deus e desejo. Mas que mal tinha nisso? As pessoas tinham mania de se sacrificar demais.

Papai, ele mesmo se sacrificava muito. Eu virando moça e ele tendo que me explicar sobre menstruação, sobre o comportamento masculino, sobre a vida feminina. Eu tentava me informar antes para que não se sentisse sempre no dever de ter que cumprir todos os papéis, mas acho que isso, ao contrário, o agoniava, parecia a ele que eu ‘aprendia as coisas na rua’. Sufocado ele me perguntava ‘minha filha onde você soube sobre isso? Você tá namorando alguém? Porque se tiver vou ter que te falar sobre como se proteger’. Escutava-o conversar com Matilde ao telefone, ‘essa menina precisa de mãe, você bem que podia se mudar pra cá’, ‘Marina, está impossível Matilde, não consigo acompanhar o raciocínio dela, agora deu pra dizer que vai fazer uma tatuagem, já viu isso? Não sei mulher faz tatuagens’. 

Mas isso foi antes, antes do acontecido. Saber desmistifica a gente. Coloca-nos no patamar do humano. Ao invés de dar, tira. Por que sobra o conhecimento, alças soltas que a vida fez e que não se prendem mais. De modo que não sei se consigo amar papai como naquele tempo em que menina o ensinava sobre abraços apertados. O pai que deixou de ser pai e virou humano. Bicho diferente. Mais do que aquela descoberta de que ‘nossos pais também têm falhas’. A falha de papai foi não ser e isso era imperdoável. Fugi porque não tive forças. Era mais do que perda, era algo nunca acontecido. Saber embaraça a gente. Cala. Inativos diante da revolta, discutir pra que? Lembrei-me de mamãe dizendo no leito de morte ‘... entenda, apenas entenda quando tudo parecer não fazer sentido...’, ela me pedia o mais difícil. Aliás, para que amá-la agora, depois de tantas revelações. Dá um enjoo no estômago, as dissimulações. Uma desordem, e novamente aquela descoberta sobre a origem, voltando da escola. Só que agora a fundação sem fundador. Tô com muito ódio de André, eu passei a chamá-lo assim, facilitava a minha ordenação no mundo. Uma raiva sem dimensão.

O que dói mais foi não ter desconfiado da traição. Um mundo de gente sabendo, uma verdadeira quadrilha familiar. Pra que exatamente? Não era tudo a mesma rotina, e as trocas semelhantes? Digo isso já sabendo da mentira. Carrego comigo esse André, bêbado em pleno dia de semana. Não há como me livrar dos tantos livros que lemos juntos para construir o nosso amanhã. Não há como desvencilhar do sofrimento sofrido junto. André ainda tão menino, mesmo agora aos quarenta com a cabeça toda branca. Preocupo-me com ele, tá levando uma vida desregrada demais, virei a responsável. Naquele último dia recente, por exemplo, só conseguiu me contar tudo porque estava bêbado. Ou talvez porque não aguentasse mais essa informação presa feito soluço. Junto das palavras o cheiro ardido de uísque. Eu acendi um cigarro ‘você está fumando minha filha?’, olhei-o, já não devia mais nada. Devia sim, mas fiz parecer que não. Ele vomitando toda aquela agonia em mim, a história toda lá no início, ele ainda morando no interior. Tapei os ouvidos, pra que deveria saber? Porque logo agora que eu ordenara minha vida, tava quase com marido, carreira, planos pra dar e vender? Queria mesmo era desaparecer ‘mamãe sabia disso também?’, ele fez que sim com a cabeça. Amedrontei-me. O buraco era mais fundo do que eu imaginava. [...]


domingo, 25 de agosto de 2013


                                 
André, fala:

Arrisquei-me a encarar a noite sem nenhuma fobia. E se tudo não passasse de um sonho e se Matilde viesse e desnuda entregasse sua pele macia à minha? Depois da castidade de Tereza, consagrada pela brevidade da vida, não ousei mais ver Matilde. Sabia que Marina me olharia como se profanasse o nome de sua mãe que a bem da verdade fora mulher em medida certa. Sabia o seu momento, o lugar dos objetos, a administração do lar. Quando moço ainda cogitei amá-la pra sempre, as pernas morenas me atiçavam, mesmo depois do câncer. Ficava com ela deitado, e até nos últimos dias de leito arrancava-lhe um sorriso pedindo para levantar a coberta e mostrar um pedacinho das coxas. Tereza, Santa Tereza que soube além de Matilde, de meus livros, de Marina. Tereza que adivinhava que o amor não se aquece com cobranças, desorganizações e exageros. Continha-se a nós, administrava nossas personalidades, nos creditava a sua bondade. Olhava pra ela vez em quando e sabia que se fazia de sonsa para nos equilibrar. Encarava-a em alguns momentos e misteriosa surpreendia-me com uma força que emanando me escandalizava. Tereza sempre fora muito inteligente, mais do que eu. Sabia de todos os grandes nomes da literatura, ainda adolescente lutou com as feministas, caminhou contra a ditadura. Depois de casada, murchou. Não submissa ou conscienciosa de sua entrega. Mas astuta, curiosa, tranquila. Taí uma coisa que posso dizer de Tereza que era uma presença pacificadora. Não alterava a voz, não repudiava, não alfinetava. Apenas nos olhava e moldando-se a cada uma de nossas características nos dava vitória sobre qualquer argumentação. Não demoramos muito a ver que no fundo quem sempre ganhava era ela, bonita, concisa, multiplicável. Mesmo na hora da morte: “Marina, minha filha, não vá se casar com um homem bruto. Cuide de seu pai minha querida, ele realmente não sabe nada sozinho. E entenda, apenas entenda quando tudo parecer não fazer sentido. Te amo mais que a mim mesma”. Ah se Tereza ainda estivesse aqui, nada disso teria acontecido. Era o pilar que nos erguia, vento forte nenhum nos balançava.
Encarei Matilde apenas umas poucas semanas depois da morte em nossa família. Essa outra, branca feito leite ainda frequentou lá em casa, acalentou Marina, deu-lhe de comer. Mas depois dessa peça horrorosa da vida, senti que ela se entristeceu. Aparecia sem viço à porta, transitava por entre os cômodos na obrigação de manter limpo o lugar, de fazer-se de mãe, de não deixar que o nome da amiga se despedaçasse junto com as poeiras de todo dia. ‘Come esse mingau Marina, é igualzinho ao que sua mãe fazia você se lembra? Você recorda como ela era bonita? Peraí que vou buscar umas fotos”. Marina, ainda com sete anos se recordaria desses recortes como uma mistura entre a figura da branca e da preta, elas duas, mães em seu tempo e seu lugar. Depois de crescida, já adolescente jogaria na minha cara que eu mal esperara o corpo da mãe ser enterrado e já trepara com Matilde na mesma cama. [...]

Ps.: Começo aqui um novo projeto: Pedaços de capítulos de um possível livro serão colocados, dando voz aos personagens que através de suas falas mostrarão brevemente do que se trata a obra toda. Logo, não esperem compreender de pronto todo o assunto porque ele está se mostrando aos pedacinhos aqui. Estranharão também porque se trata de textos mais longos, ao contrário dos mini-contos antes publicados. Espero que gostem e que eu consiga remontar a história, que ela mesmo aos retalhos se concretize. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013


XXX. Piscar de olhos

De repente li um trecho em um livro tirado aleatoriamente da estante:  “How can they even for a twinkling / In a slumber, or in daydream learn, / How can they have the slightest inkling / Of what it means for spring to yearn, […]”; era do Ilya Ehrenburg e quase me assustei de ressuscitá-lo. Junto com as palavras você me voltava como um cheiro forte, imitando a naftalina insistente que se acumulava nas páginas amarelecidas do volume poético. A última briga num sobressalto clareou a mente e eu me vi repetindo: Vê meu amor, já estou perdendo a coragem de achar o que quer que eu tenha de achar, estou perdendo a coragem de me entregar ao caminho e já estou nos prometendo que nesse inferno acharei a esperança. A coisa é tão delicada que eu me espanto de que ela chegue a ser visível. E há coisas tão mais delicadas que estas não são visíveis”. Duvido que você realmente tenha entendido o significado exato do que fora dito, eu mesma ainda me questiono sobre as tantas expressões que usamos certa de que elas atingiam valores muito diferentes para nós. Mas gosto de fantasiar que dentro daquela loucura em que vivíamos a sensatez era o menos importante. De modo que quando tomamos a decisão de nos separarmos antes que todo o amor que possuíamos se transformasse em ódio eu não hesitei. Prometi a mim mesma que o deixaria ir certa de que a memória de vinte anos fosse suficiente.  Ainda hoje teimo em acreditar que essa fora a decisão mais correta, sobrevivência. No entanto, em dias frios como esse tomando um chá e lendo um livro qualquer, as muitas tantas poesias que entrecruzaram nosso caminho, fazem-me ter vontade de voltar a você. 

Ps.: O último conto da série dos muitos publicados no Blog. A todos os amigos que por ventura leram essas minhas pequenas incursões na literatura, obrigada. Tê-los por perto é um incentivo gostoso. Rumo para outros caminhos; seria um prazer se caminhassem comigo. 
*Imagem do Manoel de Barros