O grande risco
De repente e se mais nada precisasse ser dito? Estava cansado de ter que argumentar as suas
mil conclusões, de ter que dar desculpas sobre todos os acontecimentos. De
repente começou a pensar nessa urgência da vida que exige sempre que ao
encontrar alguém seja preciso dizer. De modo que as palavras saíam e saíam sem
quase motivo. Preenchiam-se os espaços com medo de que o silêncio causasse
qualquer mal-estar. Na verdade, vinha agora um sentimento de que recolher era
preciso, obter um minuto qualquer, talvez alguns dias, talvez um ano em que se
quedaria silêncio adentro, administrando todas as informações de fora. Que
coisa estranha essa vida moderna em que nada era metabolizado, fazer, fazer,
fazer como se fosse necessário sempre fazer. É, precisava mesmo de um silêncio
momentâneo, estava exausto. Relembrou que seus momentos de epifania só
aconteceram de fato quando não tivera que pensar. Os seus melhores contos
vieram assim como de um rompante desse esquecimento da vida. Esquecia-se para
só depois poder lembrar. Por exemplo, aquela crônica que fizera para o Jornal,
tantas vezes aplaudida pela crítica, saiu de uma tarde em que não havia
esperanças. Andando pela praça florida de repente se despertou para algo grande
e bonito. Dera-se tempo. Ainda que não soubesse esperou para que seu corpo e
espírito sozinhos construíssem juntos todas as palavras. Não precisou se
esforçar, não precisou dizer, ou gritar. A urgência seca a gente, concluiu.
Começou a pensar também sobre como é arriscado se libertar da fala. Pensava
estar em constante risco com Marina, pensava que havia mesmo se arriscado
quando pegara a menina dos braços de Roberto. Um bebê tão indefeso que nada
tinha a ver nem com um nem com outro. Mas a verdade é que os maiores riscos que
poderia correr, não estava nas ações, ao contrário. Era mais arriscado viver.
Por exemplo, outro dia viu algumas pessoas que faziam uma aula de ioga ao ar
livre, de repente teve medo. E se o chamassem? Verdadeiro risco seria de cabeça
erguida ir lá se sentar junto com os outros para meditar. Entregar-se-ia às
comparações alheias, se sujeitaria a uma possível vergonha, estaria nu num
risco muito grande de ser ele mesmo. De resto, com as outras coisas e Marina se
incluía nelas podia representar. A máscara do pai presente ou ausente o
salvava. Talvez Marina nunca adivinhasse quem realmente era ele, ser humano
desnudo. Talvez um dia se a chamasse para dançar um tango argentino com ele,
ela descobrisse surpresa e amedrontada quem era ele. Do contrário, poderia
vestir as suas máscaras e se mostrar forte ou fraco não importava, mas não ele.
Isso dava segurança para ligar para ela e dizer que deveria ser perdoado. Se
houvesse uma dança ele jamais teria essa coragem. O risco, pensou, estava nesses instantes em
que desprotegidos da máscara não dizíamos nem raciocinávamos. O risco mesmo não
era ter contado para Marina sobre seu passado, nem o fato de ela ter saído de
casa, talvez nunca mais voltasse, mas o risco mesmo era se mostrar para ela sem
as máscaras. E, talvez só assim ela o perdoaria. Para tanto, deveria nascer de
novo e de novo, tantas vezes quanto possível. Deveria ser mais forte que Deus.
Que engraçado, só bem no íntimo Deus era desprovido de máscaras. Não esse Deus que
as pessoas achavam conhecer. Mas aquele Deus para o qual choramos baixinho,
confessos e entendidos de que ele também poderia cometer os mesmos erros. Risco
mesmo não era escrever as críticas mais sórdidas para o Jornal, risco era ter a
coragem de subverter a linguagem. Risco não era desenhar paisagens, mas
conseguir com maestria pintar um quadro todo azul. As pessoas talvez pensassem,
e até ele mesmo, que estavam constantemente correndo o risco de viver. Mas a
verdade é que não vivam e logo não se arriscavam. Ir da casa para o trabalho,
ir à padaria comprar o pão, acordar cedo e voltar tarde, talvez alguém o
assaltasse? Talvez tivesse um acidente de trânsito? Nada disso era comparável
com o risco de matar uma segunda-feira de trabalho sem motivo aparente. Risco
era não se importar com as consequências dessas pequenas ações das quais não
conseguíamos nos desprender. As grandes Revoluções aconteceram nessa ordem do
entendimento, e não segurando cartazes em marcha pelas ruas da cidade. As
grandes revoluções aconteceram antes de tudo na margem desse pensamento que era
permitido fazer o contrário de uma segunda-feira de trabalho. Achou engraçado,
talvez estivesse louco, ou talvez ele só estivesse arrumando desculpa para
justificar as suas falhas. Quem se
importava? Queria correr o risco.




