
André, fala:
Arrisquei-me
a encarar a noite sem nenhuma fobia. E se tudo não passasse de um sonho e se
Matilde viesse e desnuda entregasse sua pele macia à minha? Depois
da castidade de Tereza, consagrada pela brevidade da vida, não ousei mais ver
Matilde. Sabia que Marina me olharia como se profanasse o nome de sua mãe que a
bem da verdade fora mulher em medida certa. Sabia o seu momento, o lugar dos
objetos, a administração do lar. Quando moço ainda cogitei amá-la pra sempre,
as pernas morenas me atiçavam, mesmo depois do câncer. Ficava com ela deitado,
e até nos últimos dias de leito arrancava-lhe um sorriso pedindo para levantar
a coberta e mostrar um pedacinho das coxas. Tereza, Santa Tereza que soube além
de Matilde, de meus livros, de Marina. Tereza que adivinhava que o amor não se
aquece com cobranças, desorganizações e exageros. Continha-se a nós,
administrava nossas personalidades, nos creditava a sua bondade. Olhava pra ela
vez em quando e sabia que se fazia de sonsa para nos equilibrar. Encarava-a em
alguns momentos e misteriosa surpreendia-me com uma força que emanando me
escandalizava. Tereza sempre fora muito inteligente, mais do que eu. Sabia de
todos os grandes nomes da literatura, ainda adolescente lutou com as
feministas, caminhou contra a ditadura. Depois de casada, murchou. Não submissa
ou conscienciosa de sua entrega. Mas astuta, curiosa, tranquila. Taí uma coisa
que posso dizer de Tereza que era uma presença pacificadora. Não alterava a voz,
não repudiava, não alfinetava. Apenas nos olhava e moldando-se a cada uma de
nossas características nos dava vitória sobre qualquer argumentação. Não demoramos
muito a ver que no fundo quem sempre ganhava era ela, bonita, concisa, multiplicável.
Mesmo na hora da morte: “Marina, minha filha, não vá se casar com um homem
bruto. Cuide de seu pai minha querida, ele realmente não sabe nada sozinho. E entenda,
apenas entenda quando tudo parecer não fazer sentido. Te amo mais que a mim
mesma”. Ah se Tereza ainda estivesse aqui, nada disso teria acontecido. Era o
pilar que nos erguia, vento forte nenhum nos balançava.
Encarei Matilde apenas umas poucas semanas depois da morte em nossa família. Essa outra,
branca feito leite ainda frequentou lá em casa, acalentou Marina, deu-lhe de
comer. Mas depois dessa peça horrorosa da vida, senti que ela se entristeceu.
Aparecia sem viço à porta, transitava por entre os cômodos na obrigação de
manter limpo o lugar, de fazer-se de mãe, de não deixar que o nome da amiga se
despedaçasse junto com as poeiras de todo dia. ‘Come esse mingau Marina, é
igualzinho ao que sua mãe fazia você se lembra?
Você recorda como ela era bonita? Peraí que vou buscar umas fotos”. Marina, ainda
com sete anos se recordaria desses recortes como uma mistura entre a figura da
branca e da preta, elas duas, mães em seu tempo e seu lugar. Depois de
crescida, já adolescente jogaria na minha cara que eu mal esperara o corpo da
mãe ser enterrado e já trepara com Matilde na mesma cama. [...]
Ps.: Começo aqui um novo projeto: Pedaços de capítulos de um possível livro serão colocados, dando voz aos personagens que através de suas falas mostrarão brevemente do que se trata a obra toda. Logo, não esperem compreender de pronto todo o assunto porque ele está se mostrando aos pedacinhos aqui. Estranharão também porque se trata de textos mais longos, ao contrário dos mini-contos antes publicados. Espero que gostem e que eu consiga remontar a história, que ela mesmo aos retalhos se concretize.
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