De repente li um trecho em um livro tirado aleatoriamente da estante: “How can they even
for a twinkling / In a slumber, or in daydream learn, / How can they have the
slightest inkling / Of what it means for spring to yearn, […]”; era do Ilya Ehrenburg e quase me assustei de ressuscitá-lo. Junto com as palavras você me voltava como um cheiro
forte, imitando a naftalina insistente que se acumulava nas páginas
amarelecidas do volume poético. A última briga num sobressalto clareou a mente
e eu me vi repetindo: “Vê meu amor, já estou perdendo a coragem de achar o
que quer que eu tenha de achar, estou perdendo a coragem de me entregar ao
caminho e já estou nos prometendo que nesse inferno acharei a esperança. A
coisa é tão delicada que eu me espanto de que ela chegue a ser visível. E há
coisas tão mais delicadas que estas não são visíveis”. Duvido que você
realmente tenha entendido o significado exato do que fora dito, eu mesma ainda
me questiono sobre as tantas expressões que usamos certa de que elas atingiam
valores muito diferentes para nós. Mas gosto de fantasiar que dentro daquela
loucura em que vivíamos a sensatez era o menos importante. De modo que quando
tomamos a decisão de nos separarmos antes que todo o amor que possuíamos se
transformasse em ódio eu não hesitei. Prometi a mim mesma que o deixaria ir
certa de que a memória de vinte anos fosse suficiente. Ainda hoje teimo em acreditar que essa fora a
decisão mais correta, sobrevivência. No entanto, em dias frios como
esse tomando um chá e lendo um livro qualquer, as muitas tantas poesias que entrecruzaram
nosso caminho, fazem-me ter vontade de voltar a você.
Ps.: O último conto da série dos muitos publicados no Blog. A todos os amigos que por ventura leram essas minhas pequenas incursões na literatura, obrigada. Tê-los por perto é um incentivo gostoso. Rumo para outros caminhos; seria um prazer se caminhassem comigo.
*Imagem do Manoel de Barros

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