segunda-feira, 3 de junho de 2013


                      

XXIX. O sem fim do sem fio

Das coisas que mais desgostava na vida era falar ao telefone. Fosse para chamar um parente, fosse para atender a um amigo, seu espírito nunca fora afeiçoado a desperdiçar horas tagarelando. Não sabia exatamente o motivo, mas a ela parecia sempre que lhe adivinhavam os seus mais profundos segredos pela voz. Do outro lado da linha a sua fala tornava-se trêmula, não conseguia fazer-se entender sem a mímica dos gestos, sem o olhar do outro captando o que as palavras não chegavam a alcançar. Era frágil sem esses outros meios de explicação, e tudo que pudesse dizer poderia soar como mentira, como desafeto, como incompreensão. De modo que suas ligações se resumiam a dar os parabéns aos entes mais próximos, ou a atender um chamado de socorro. Nem mesmo a escrita era tão dolorosa, poderia escrever páginas aos amigos contando suas novidades, poderia mandar cartas de amor sem se envergonhar. Mas ao atender uma chamada, era sempre o mesmo sacrifício, subia-lhe um suor frio, a barriga gelada, a voz quase inaudível resumia-se em um ‘alô’ seco e sem entusiasmo. Para evitar mais estranhamentos, que a perdoassem todos, mas a decisão estava tomada. Nadando contra a corrente da modernidade, quedaria tranquila ilhada em uma vida anônima sem o barulho insistente de um telefonema. 

Ps.: Marcando o fim de um caminho.  Fotografia do Evgen Bavcar. Em tempos em que tudo parece ser necessário dizer, um texto sobre a escassez da fala. Em tempos em que é preciso ver para crer, uma imagem do Bavcar.  

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