
XXVIII. Os
quereres
Coisas que odiava: vento batendo na cara, música
ao último volume, televisão alta, pessoas que gritam. Também odiava que lhe
batessem à porta do quarto quando se trancava para obter um pouco de paz no
silêncio, engraçado como nunca entediam que uma pessoa pode querer ficar
sozinha. Fazia pouco tempo que também passara a odiar tudo que tivesse muito
doce, seu paladar acostumara-se aos azedos e aos amargos, de uma maneira muito
calma, aliás, a ponto de um dos seus maiores prazeres passarem a ser uma boa
xícara de café sem nenhum açúcar. Mas agora nenhuma dessas suas preferências
importava muito, João tinha ido embora. Agora sabia que alguns de nossos
quereres só têm valia se servirem para incomodar os outros. Como um calo, como
um pequeno alfinete que espeta dia-a-dia só para mostrar-se presente, só pra
causar um pouco de desconforto em favor da lembrança. Quando João arrumou suas malas sem a olhar e sem se
virar para trás ele a confrontara a fazer tudo àquilo que ela não gostava para
dizer que já não existia mais nada entre os dois. Gritou feito louca, esmurrou a porta que se manteve trancada até a última roupa dobrada. Durante muito
tempo depois do acontecido ainda comia tanto chocolate para acalmar o espírito,
que lhe ficava um gosto ruim na boca, uma vontade absurda de tomar água o dia
inteiro. De modo que há ainda dias que coloca para tocar um jazz qualquer, aumento
o som até o possível e resta lá dentro dessa atmosfera como numa bolha na
qual ainda paira a imagem de João bonito e impaciente.
Ps.: Um dos últimos mini-contos do meu projeto pessoal.
Ps.: Um dos últimos mini-contos do meu projeto pessoal.
Um comentário:
Uma boa xícara de café sem açúcar até que traz prazer. Experimente!
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