quinta-feira, 16 de maio de 2013

                  

XXVII. Caixinha encantada

E de repente a palavra, que surgia insistente ao longo das atribulações do dia. Quando menina volta e meia era obrigada a recorrer a um silêncio contínuo em busca de tentar calar as ideias que fervilhavam necessitando de papel e tinta. Demorou anos para deixar cumprir certa destinação de fazer do verbo uma solução espontânea para a vida. Essa espera não escolhida foi moldando a amalgama disforme de substantivos, histórias e fantasias. A certa altura resolveu deixar fluir a poesia que lhe surgia quase sem controle. Rasgou um pedaço de papel e sentou decida a arrumar as palavras em métricas e rimas, começou:

'Libertei as borboletas cores vivas
Das imediações de minha alma um pouco sonolenta
Só pelo prazer de estar soltando-as
Para vê-las voarem bem alto
Longe de meus olhos
Inteiramente sozinhas
Para que pudessem
Sonhar...'

Então era só isso que lhe saía?! Uma mistura de sons mal colocados e ideias sem sentido?! Achou que o melhor mesmo era guardar a sua caixinha secreta de pensamentos. Lá dentro, escondidos na memória dos fatos os versos eram muito mais bonitos. Quase encantados.

PS.: Tantos caminhos em uma única e permanente confluência. Imagem da Lygia Clark.

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