segunda-feira, 20 de maio de 2013



                                    

XXVIII. Os quereres


Coisas que odiava: vento batendo na cara, música ao último volume, televisão alta, pessoas que gritam. Também odiava que lhe batessem à porta do quarto quando se trancava para obter um pouco de paz no silêncio, engraçado como nunca entediam que uma pessoa pode querer ficar sozinha. Fazia pouco tempo que também passara a odiar tudo que tivesse muito doce, seu paladar acostumara-se aos azedos e aos amargos, de uma maneira muito calma, aliás, a ponto de um dos seus maiores prazeres passarem a ser uma boa xícara de café sem nenhum açúcar. Mas agora nenhuma dessas suas preferências importava muito, João tinha ido embora. Agora sabia que alguns de nossos quereres só têm valia se servirem para incomodar os outros. Como um calo, como um pequeno alfinete que espeta dia-a-dia só para mostrar-se presente, só pra causar um pouco de desconforto em favor da lembrança.  Quando João arrumou suas malas sem a olhar e sem se virar para trás ele a confrontara a fazer tudo àquilo que ela não gostava para dizer que já não existia mais nada entre os dois. Gritou feito louca, esmurrou a porta que se manteve trancada até a última roupa dobrada. Durante muito tempo depois do acontecido ainda comia tanto chocolate para acalmar o espírito, que lhe ficava um gosto ruim na boca, uma vontade absurda de tomar água o dia inteiro. De modo que há ainda dias que coloca para tocar um jazz qualquer, aumento o som até o possível e resta lá dentro dessa atmosfera como numa bolha na qual ainda paira a imagem de João bonito e impaciente.

Ps.: Um dos últimos mini-contos do meu projeto pessoal.

Um comentário:

Anônimo disse...

Uma boa xícara de café sem açúcar até que traz prazer. Experimente!