quinta-feira, 5 de setembro de 2013

                                   

Perdi-me. No meio do caos, a infância. Quando era já mocinha voltando da escola, no caminho a surpresa. A névoa que desaparecia, tive consciência pela primeira vez. A consciência reflexiva de que eu era eu como parte do mundo. Mas então, se só agora, o que havia sido antes dos quatorze anos? Um sorriso de desconforto, o descobrimento. Esse momento foi mais forte que a primeira experiência de sexo, de morte, de relacionamento. Mais forte que mamãe morrendo. Por que eu não sendo eu aos sete anos não sabia de mamãe dentro de mim como parte fundadora, a experiência vinha de fora, e não de dentro. Senti como se a perda acontecesse num lugar distante, ainda que na minha casa, no meu café, no meu aconchego. Chorei muito, mas já grande, senti falta tardia, antes tinha o repugno, o não entendimento, uma mulher sem os seios. E depois lá pelos quinze a mãe que não teria na formatura, a ausência na noite de autógrafos. Só veio muito mais tarde, também a consciência de Deus. Os meus amigos, por exemplo, se orgulhavam de negar a existência do Divino. Se alguém perguntava ‘Você acredita em Deus? ’, a resposta óbvia, antes mesmo do que pensada ou sentida era um sonoro ‘NÃO’. Eu duvidava, porque a pergunta era um vitral com uma multiplicidade vasta de compreensões. Deus pra quem? A qual Deus se referia? O do padre, o do muçulmano  o do pastor? Deus era tão múltiplo quanto a pergunta ou a pessoa que interpretava a resposta. Logo dei pra dizer sim e não, para um questionamento nada pragmático, nada racional. Raciocinava-se sobre a experiência, o que não fazia sentido. A gente antecede o raciocínio, só os bobos não veem que a experiência primeira é isenta de teorizações. Ao beijar não se imagina colocando a língua lá dentro e sabendo dos movimentos próximos que devem ou não ser feitos. A experiência apenas, que se faz como preceito anterior. E Deus era a experiência anterior de modo que eu poderia dizer sim e não. O não para qualquer lógica sobre essa transcendência, tal como faziam as igrejas e o sim para o beijo. Comecei a me achar meio pecadora por misturar Deus e desejo. Mas que mal tinha nisso? As pessoas tinham mania de se sacrificar demais.

Papai, ele mesmo se sacrificava muito. Eu virando moça e ele tendo que me explicar sobre menstruação, sobre o comportamento masculino, sobre a vida feminina. Eu tentava me informar antes para que não se sentisse sempre no dever de ter que cumprir todos os papéis, mas acho que isso, ao contrário, o agoniava, parecia a ele que eu ‘aprendia as coisas na rua’. Sufocado ele me perguntava ‘minha filha onde você soube sobre isso? Você tá namorando alguém? Porque se tiver vou ter que te falar sobre como se proteger’. Escutava-o conversar com Matilde ao telefone, ‘essa menina precisa de mãe, você bem que podia se mudar pra cá’, ‘Marina, está impossível Matilde, não consigo acompanhar o raciocínio dela, agora deu pra dizer que vai fazer uma tatuagem, já viu isso? Não sei mulher faz tatuagens’. 

Mas isso foi antes, antes do acontecido. Saber desmistifica a gente. Coloca-nos no patamar do humano. Ao invés de dar, tira. Por que sobra o conhecimento, alças soltas que a vida fez e que não se prendem mais. De modo que não sei se consigo amar papai como naquele tempo em que menina o ensinava sobre abraços apertados. O pai que deixou de ser pai e virou humano. Bicho diferente. Mais do que aquela descoberta de que ‘nossos pais também têm falhas’. A falha de papai foi não ser e isso era imperdoável. Fugi porque não tive forças. Era mais do que perda, era algo nunca acontecido. Saber embaraça a gente. Cala. Inativos diante da revolta, discutir pra que? Lembrei-me de mamãe dizendo no leito de morte ‘... entenda, apenas entenda quando tudo parecer não fazer sentido...’, ela me pedia o mais difícil. Aliás, para que amá-la agora, depois de tantas revelações. Dá um enjoo no estômago, as dissimulações. Uma desordem, e novamente aquela descoberta sobre a origem, voltando da escola. Só que agora a fundação sem fundador. Tô com muito ódio de André, eu passei a chamá-lo assim, facilitava a minha ordenação no mundo. Uma raiva sem dimensão.

O que dói mais foi não ter desconfiado da traição. Um mundo de gente sabendo, uma verdadeira quadrilha familiar. Pra que exatamente? Não era tudo a mesma rotina, e as trocas semelhantes? Digo isso já sabendo da mentira. Carrego comigo esse André, bêbado em pleno dia de semana. Não há como me livrar dos tantos livros que lemos juntos para construir o nosso amanhã. Não há como desvencilhar do sofrimento sofrido junto. André ainda tão menino, mesmo agora aos quarenta com a cabeça toda branca. Preocupo-me com ele, tá levando uma vida desregrada demais, virei a responsável. Naquele último dia recente, por exemplo, só conseguiu me contar tudo porque estava bêbado. Ou talvez porque não aguentasse mais essa informação presa feito soluço. Junto das palavras o cheiro ardido de uísque. Eu acendi um cigarro ‘você está fumando minha filha?’, olhei-o, já não devia mais nada. Devia sim, mas fiz parecer que não. Ele vomitando toda aquela agonia em mim, a história toda lá no início, ele ainda morando no interior. Tapei os ouvidos, pra que deveria saber? Porque logo agora que eu ordenara minha vida, tava quase com marido, carreira, planos pra dar e vender? Queria mesmo era desaparecer ‘mamãe sabia disso também?’, ele fez que sim com a cabeça. Amedrontei-me. O buraco era mais fundo do que eu imaginava. [...]


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