
O começo, com Roberto:
Acordei decido a acabar com essa
palhaçada toda. André agora deu pra se fingir de sonso, como se nada fosse
responsabilidade dele. Usa desse distúrbio de personalidade pra acobertar que
na verdade a ideia foi toda dele. Era ele que estava encurralado na vida, e eu
tenho lá culpa se não conseguiu satisfazer a mulher? Coitada de Tereza teve que aguentar o encosto. Sempre
achei que a vontade dela era tê-lo abandonado, ido viver a vida, uma moça tão
bonita, tão inteligente, presa a um homem sem nenhuma perspectiva. Certamente
quis deixá-lo, mas lá pelas tantas apareceu a menina, imediatamente o espírito
maternal falou mais alto. A partir daquele momento, acho que não importava mais
a Tereza servir ao marido, serviria na verdade à pequena. Finalmente uma
família. E mamãe também levou um susto, a patota toda ficou feliz, por fim eu
tinha era solucionado os problemas todos. E agora, vem André com essa história
de ‘a culpa é toda sua’. Tenho que encontrar Marina e esclarecer essa história.
A coitada deve estar achando que sou um monstro. Todos uns coitados, ou pelo
menos se portam como tal, verdadeiro dramalhão. Uma choradeira, uma novela
mexicana. Parecem ter um apego continuado pelo sofrimento. Só se sentem sadios
se alguém os vir lamentando sobre a vida, ‘ó vida, ó céus’. Deus me livre! Eu
aqui trabalhando o dia inteiro, ralando meu buxo nessa oficina de merda, e
André lá fingindo-se de escritor. Ah, faça-me o favor. Quando ele disse pra
mamãe que ia escrever livros, ela só faltou emoldurá-lo. Finalmente um de seus
dois meninos daria certo na vida. Porque nesse mundo de hoje, trabalhar ficou
pra segundo plano. Eu com quatorze anos já trabalhava. Agora basta que você se
intitule estudante e já ganhou a vida. Venceu exatamente no que? Sei que mamãe até hoje manda dinheiro ás escondidas
pra André, empresta sem cobrar juros, agora você pensa, um homem de quarenta
anos. Tá explicado porque Marina é tão problemática, espelhou o pior lado,
aliás, o que único que restou a ela. ‘Alma de artista’ e vê lá se artista faz
alguma coisa. André acorda bebe um uísque digita umas bobagens na máquina, vai à
casa de amigos, vagabundeia por aí o dia todo, e orgulha-se de dizer ter uma
profissão.
Teve uma época que ainda meninos eu dei
pra bater nele, essa coisa de ter a sensibilidade aflorada. ‘Na minha casa não!’.
Agora já se viu homem dizendo que ia virar artista, todo mundo caçoando da
gente ‘endireita esse corpo André, se disser pra mais alguém que vai virar
pintor te dou uma surra!’, ‘tão falando por aí que você é viado, é verdade?’. Depois de velho ainda desconfiava, esse menino que
não arrumava namorada, ficava enlouquecido. Mas depois apareceu Tereza. Antes mesmo
de desejá-la, tive foi um alívio, ‘finalmente deu certo na vida’. E essa moça
quase uma mulher, os seios já formados, tão durinhos por debaixo da seda, as
pernas grossas num moreno aveludado, ‘não me deixe pecar, senhor, senão André
nunca mais arranja mulher nenhuma’. Mais do que isso ela era uma das pessoas
mais inteligentes que conheci, não sei o que via no meu irmão. Um Zé ninguém,
que não abria a boca pra dizer nada. Um dia perguntei ‘o que você vê nesse
menino, Tereza?’, ela olhou longamente para um
cavalete que ele largara na sala. ‘As cores Roberto, as cores. Nunca vi ninguém
que combina tão bem as cores. André não precisa dizer nada, os quadros se dizem
por que a sensibilidade também impressiona’. ‘A sensibilidade também
impressiona’ uma bobagem danada, todo mundo achando que era hipe, todo mundo
achando que o mundo se resolvia com amor. As mulheres começaram a procurar esse tipo,
não era mais como na minha adolescência que bastava ser homem, trabalhar e ter
um carro. Agora tinha que saber falar difícil, tinha que ter lido tal e tal
livro, tinha que saber argumentar sobre política, cultura, arte. Uma danação.
Acho que foi nessa época que comecei a me perder, o curso do tempo me largava
com meu rock, o brilho da juventude apagava diante de toda informação
necessária. Agora pra ser gente, tem que ir pra escola. Pois fiquem todos
sabendo que a gente aprende muito mais com a vida. Não adianta ficar repetindo
frases de filósofos se nunca pegou no batente, se nunca segurou uma enxada.
Agora também já não importa nada, até mamãe que
sempre se afeiçoara mais a mim, coitado de André que pensava o contrário, renegava-me.
Ligou há três dias e a única coisa que soube dizer foi ‘resolva essa embrulhada
em que colocou todo mundo’, ‘tô com vontade de te dar a coça que nunca te dei’,
‘pequei por achar que você crescido se endireitaria’, ‘cansei de acobertar suas
lambanças meu filho, você já tá cinquenta anos tenha decência de me privar
dessa confusão, já não tenho mais idade’. A única verdade é que ela já não
tinha mais idade, beirava os setenta e sete com um corpo em deterioração. Ao
contrário, a cabeça ainda trabalhava a todo vapor, ligava pra gente
esbravejando, organizava nossa vida, distribuía raciocínios, conselhos,
desentendimentos. A única que se salvava do temperamento ranzinza adquirido com
a idade era Marina, neta solitária. Deslumbrava-se com a pequena, fazia dela um
espelho dos áureos tempos juvenis ‘Marina minha filha, você é tão parecida
comigo’, eu pensava só se for pela personalidade impossível. Marina transferiu
tudo pra mamãe, a avó que parecia ser mãe, mesmo com a presença de Matilde, mas
isso é outra história um tanto quanto longa e nojenta. Nem eu teria tido essa
coragem ...
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