domingo, 22 de setembro de 2013

                               
O começo, com Roberto: 
Acordei decido a acabar com essa palhaçada toda. André agora deu pra se fingir de sonso, como se nada fosse responsabilidade dele. Usa desse distúrbio de personalidade pra acobertar que na verdade a ideia foi toda dele. Era ele que estava encurralado na vida, e eu tenho lá culpa se não conseguiu satisfazer a mulher? Coitada de Tereza teve que aguentar o encosto. Sempre achei que a vontade dela era tê-lo abandonado, ido viver a vida, uma moça tão bonita, tão inteligente, presa a um homem sem nenhuma perspectiva. Certamente quis deixá-lo, mas lá pelas tantas apareceu a menina, imediatamente o espírito maternal falou mais alto. A partir daquele momento, acho que não importava mais a Tereza servir ao marido, serviria na verdade à pequena. Finalmente uma família. E mamãe também levou um susto, a patota toda ficou feliz, por fim eu tinha era solucionado os problemas todos. E agora, vem André com essa história de ‘a culpa é toda sua’. Tenho que encontrar Marina e esclarecer essa história. A coitada deve estar achando que sou um monstro. Todos uns coitados, ou pelo menos se portam como tal, verdadeiro dramalhão. Uma choradeira, uma novela mexicana. Parecem ter um apego continuado pelo sofrimento. Só se sentem sadios se alguém os vir lamentando sobre a vida, ‘ó vida, ó céus’. Deus me livre! Eu aqui trabalhando o dia inteiro, ralando meu buxo nessa oficina de merda, e André lá fingindo-se de escritor. Ah, faça-me o favor. Quando ele disse pra mamãe que ia escrever livros, ela só faltou emoldurá-lo. Finalmente um de seus dois meninos daria certo na vida. Porque nesse mundo de hoje, trabalhar ficou pra segundo plano. Eu com quatorze anos já trabalhava. Agora basta que você se intitule estudante e já ganhou a vida. Venceu exatamente no que? Sei que mamãe até hoje manda dinheiro ás escondidas pra André, empresta sem cobrar juros, agora você pensa, um homem de quarenta anos. Tá explicado porque Marina é tão problemática, espelhou o pior lado, aliás, o que único que restou a ela. ‘Alma de artista’ e vê lá se artista faz alguma coisa. André acorda bebe um uísque digita umas bobagens na máquina, vai à casa de amigos, vagabundeia por aí o dia todo, e orgulha-se de dizer ter uma profissão.

Teve uma época que ainda meninos eu dei pra bater nele, essa coisa de ter a sensibilidade aflorada. ‘Na minha casa não!’. Agora já se viu homem dizendo que ia virar artista, todo mundo caçoando da gente ‘endireita esse corpo André, se disser pra mais alguém que vai virar pintor te dou uma surra!’, ‘tão falando por aí que você é viado, é verdade?’. Depois de velho ainda desconfiava, esse menino que não arrumava namorada, ficava enlouquecido. Mas depois apareceu Tereza. Antes mesmo de desejá-la, tive foi um alívio, ‘finalmente deu certo na vida’. E essa moça quase uma mulher, os seios já formados, tão durinhos por debaixo da seda, as pernas grossas num moreno aveludado, ‘não me deixe pecar, senhor, senão André nunca mais arranja mulher nenhuma’. Mais do que isso ela era uma das pessoas mais inteligentes que conheci, não sei o que via no meu irmão. Um Zé ninguém, que não abria a boca pra dizer nada. Um dia perguntei ‘o que você vê nesse menino, Tereza?’, ela olhou longamente para um cavalete que ele largara na sala. ‘As cores Roberto, as cores. Nunca vi ninguém que combina tão bem as cores. André não precisa dizer nada, os quadros se dizem por que a sensibilidade também impressiona’. ‘A sensibilidade também impressiona’ uma bobagem danada, todo mundo achando que era hipe, todo mundo achando que o mundo se resolvia com amor.  As mulheres começaram a procurar esse tipo, não era mais como na minha adolescência que bastava ser homem, trabalhar e ter um carro. Agora tinha que saber falar difícil, tinha que ter lido tal e tal livro, tinha que saber argumentar sobre política, cultura, arte. Uma danação. Acho que foi nessa época que comecei a me perder, o curso do tempo me largava com meu rock, o brilho da juventude apagava diante de toda informação necessária. Agora pra ser gente, tem que ir pra escola. Pois fiquem todos sabendo que a gente aprende muito mais com a vida. Não adianta ficar repetindo frases de filósofos se nunca pegou no batente, se nunca segurou uma enxada.

Agora também já não importa nada, até mamãe que sempre se afeiçoara mais a mim, coitado de André que pensava o contrário, renegava-me. Ligou há três dias e a única coisa que soube dizer foi ‘resolva essa embrulhada em que colocou todo mundo’, ‘tô com vontade de te dar a coça que nunca te dei’, ‘pequei por achar que você crescido se endireitaria’, ‘cansei de acobertar suas lambanças meu filho, você já tá cinquenta anos tenha decência de me privar dessa confusão, já não tenho mais idade’. A única verdade é que ela já não tinha mais idade, beirava os setenta e sete com um corpo em deterioração. Ao contrário, a cabeça ainda trabalhava a todo vapor, ligava pra gente esbravejando, organizava nossa vida, distribuía raciocínios, conselhos, desentendimentos. A única que se salvava do temperamento ranzinza adquirido com a idade era Marina, neta solitária. Deslumbrava-se com a pequena, fazia dela um espelho dos áureos tempos juvenis ‘Marina minha filha, você é tão parecida comigo’, eu pensava só se for pela personalidade impossível. Marina transferiu tudo pra mamãe, a avó que parecia ser mãe, mesmo com a presença de Matilde, mas isso é outra história um tanto quanto longa e nojenta. Nem eu teria tido essa coragem ...

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