Na cabeça de André, um parêntese para a divagação
A manhã o violentava. André acordou ainda meio sonso de
ressaca, o sol ondulante e quente vibrava por entre as cortinas, fazendo-o
perceber que já era tempo de levantar. Provavelmente seriam já umas duas da tarde.
Tinha poucas forças, restou ali por uns minutos, como se não precisasse começar
o dia, fazia tempo que relegara seu trabalho a segundo plano, faltava matéria
prima, lia pouco, comia mal, dormia dias inteiros, como se não necessitasse,
apenas. Se ao menos tivesse um trabalho no qual precisasse levantar bem cedo,
se arrumar, e só voltar lá pelas seis da tarde. Sofreria menos, certamente. O
trivial do dia é mais fácil quando o curso dos acontecimentos já foi traçado
por outrem. É de um mecânico bonito esse ir e vir cumprindo horários, como se a
única certeza exata fosse de que se desempenhou um dever muito importante ao
fim do dia. Assim priva-se até o pensamento, e é mais fácil rir, e é mais fácil
se emocionar, basta que te indiquem uma canção, um filme. A dor fica menor
quando a ação precede a reflexão, que certamente nem existe. Mas nem fazia sentido
pensar nessas questões, quando André nunca se afeiçoara a todas essas regras
estabelecidas pela coletividade. No entanto, agora deitado e olhando para a
parede branca do quarto, sentiu que seu desejo maior talvez fosse as amarras. Queria
esse colo ao avesso, como quando se liga para a mãe em busca de consolo. Talvez
precisasse ligar mesmo para a sua mãe, dizer a ela que tudo dera errado, que na
verdade ela deveria era amar mais a Roberto, era ele o correto. Talvez ligasse
e não dissesse nada e no silêncio ela já entendesse. Queria levantar, mas sentiu
a garganta um pouco corroída, o corpo dolorido, um ardor nos olhos. Estava um
pouco febril o corpo dava sinais de que a vida andava por caminhos errados. Mas
não ficou triste, nem ao menos temeroso por conta dessa constatação. Ao
contrário, estar doente o salvava, dava a ele a permissão de permanecer na
cama. Caso alguém ligasse diria ‘hoje eu não irei, estou um pouco adoentado’ e
ao telefone ouviria comentários como ‘fique bem’, ‘melhoras’, apenas isso já
seria o suficiente para acalentar o seu espírito. Talvez ligasse pra Marina, o
fato de estar doente poderia fazê-la ser mais condescendente com a situação.
Poderia até aumentar um pouco mais a verdadeira gravidade da situação só para
vê-la tendo pena dele. Dó, de longe o pior sentimento que se pode ter de
alguém, já se suprime de antemão a capacidade resolutiva do outro. Mas não se
importava, pois queria era resoluções prontas. Foi até a cozinha preparar um
chá de erva cidreira, comeria umas torradas também. Talvez experimentasse uma
antiga sensação de encanto que tivera a primeira vez que tomara chá de
cidreira. Preparou o espírito para ao dar o primeiro gole receber aquele prazer
infantil de outrora. Não pode, no entanto, a verdade é que não se pode
experimentar vivenciar a mesma sensação uma segunda vez. Pois no meio, já há a
memória do prazer absoluto, um parâmetro difícil de comparação. Pensou que
deveriam ensinar essas coisas enquanto ainda se era menino, só assim as pessoas
não viveriam a vida na espera de alcançar prazer nas mesmas coisas. Decidiu
tentar ligar para Marina.
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