
Como eu teria sido?
Recebi duas ligações uma pela manhã e outra já no cair da
tarde. Não posso dizer que uma me assustou menos que a outra, pois ambas me
deixaram como que um gosto ruim na boca. E, no entanto, agora já com a noite
densa me consumindo sinto como um prazer estranho. Finalmente um pouco de
lucidez começa a entrar no meu espírito e eu sinto como se entendesse enfim.
Talvez até um pouco mais do que isso, talvez agora eu compreenda que não
poderei segurar com minhas próprias mãos os cursos do destino, e que não
poderia, ter feito isso quando menina. É um sossego que me vem por não ser mais
a responsável. O que sinto é uma espécie de liberdade como se não me coubesse
mais ter todas as respostas. Isso facilita tudo.
O primeiro a ligar foi Roberto. No meio de sua interlocução
de homem bruto, vi que era na verdade muito frágil. Permaneci a maior parte do
tempo em silêncio. Dei a ele a possibilidade de falar o que quisesse em
princípio porque não me interessava ouvi-lo. Mas depois fui foi tomada de certo
amor por aquele tio a qual nunca me apeguei. Ele me disse: ‘Marina, você tem
que entender que quando a gente é moço comete muitos erros’. ‘Eu mesmo quando
tinha a sua idade fiz muitas besteiras, a pior delas talvez tenha sido essa que
agora causou a bagunça toda em nossa família’. ‘Não venho e não quero o seu
perdão, não porque não ache que mereça, mas porque não tenho o direito de pedi-lo,
porque sei que se voltasse lá naqueles tempos faria tudo novamente’. Eu o
escutava engolindo os soluços que me subiam até a garganta, as lágrimas me
escorriam quase doces sem pedirem para sair. ‘Minha querida, eu não espero que
você me entenda e passe a me tratar diferente do que tem sido até agora’. ‘Sei
das dificuldades todas de André para te criar e fico contente dele ter dado
conta de te transformar na mulher que você é hoje. Dá-me certo alívio, pois teve
um tempo em que achei que ele não fosse dar conta’. Eu que depois de todas as
revelações achei que Roberto na verdade nunca se importara, escutava todas
aquelas palavras silenciada pela vida, pensando que talvez eu pudesse cometer
os mesmos erros. A seu modo rude, ele me dava sinais de amor e cuidado. Um
mistura de aprofundamentos que eu não compreendia ódio e gostar misturados. ‘Quero
que você saiba que não justifico meus atos tentando fazer com que você venha a
ser agora o que não pode mais. Quero que você saiba que não fiz pensando em
você, em André, em ninguém. Em princípio quando se é jovem minha pequena se
pensa é na gente mesmo’. Achei-o corajoso por assumir o seu egoísmo, vinha
clara a imagem de um ser humano qualquer que agora entregava sem necessidade as
suas fraquezas. Falei, ‘Roberto, não se preocupe com o que eu acho ou deixei de
achar sobre a sua pessoa, já não tem mais importância, porque nada mudará
naquilo que chamamos de família’. ‘Não espere que eu crie de um dia pro outro
afeto por alguém que nunca tive’. Nessas palavras eu me igualava à sua rudeza
como que para mostrar que fizéssemos o que fizéssemos, fossemos quem fossemos a
peça fundamental que formava a nossa identidade vinha de outros tempos,
guardada na genética encontrava-se o princípio que criação nenhuma abalaria.
Ele falou por quase duas horas seguidas, contou detalhes sórdidos de sua vida,
esmiuçou as suas desgraças, não sei se na ânsia de se fazer compreender, ou se
na tentativa de me fazer ter pena dele. Eu como uma criança queria colo, talvez
o olhar de mamãe me dizendo que ficaria tudo bem. Poderia depois de aquela
conversação deitar de bruços na cama e chorar por horas a fio. Talvez não,
estava exausta, todas as minhas energias psicológicas haviam sido sugadas. O
que desejei por fim era não ter que pensar, era um vazio, um silêncio cósmico e
transcendente que entrasse em mim e ocupasse a matéria que eu estava sendo. Como
quando se bebe muito, e pode deixar o corpo seguir seu rumo sozinho. O que eu
precisava na verdade não poderia colocar aqui, porque era grande e
inexplicável. E depois tinha a pergunta, ‘E agora o que fazer de mim?’. Estava órfã de pai e de mãe. Passei toda a tarde
tentando metabolizar essa primeira e tão pouco elucidativa conversa com
Roberto. Quando já no cair da noite, liga André, já um tanto desesperado com
meu sumiço inconsequente a seus olhos. Demorei a atendê-lo, ele deve ter ligado
no mínimo umas três vezes antes que eu tomasse coragem, antes que eu tivesse
forças, pois estava esgotada. Mas pensei que se fosse para passar por catarse
como aquela que fosse tudo de uma vez, bebida em goles longos e aturdidos. ‘Marina,
você não pode fazer isso comigo, lembre-se de que ainda sou seu pai’. Ouvi-lo
falar isso me sacrificava. Senti pela primeira vez como se estivesse amputada
de um braço. A palavra pai me deixava tonta, pela primeira vez a clareza de que
eu estava sem uma parte do meu próprio corpo, havia perdido. Qualquer coisa
dentro de mim havia ido embora, e sem o braço do pai tentava agarrar qualquer
figura que outrora me lembrasse desse mito, quase o mito de Deus. Disse: ‘Pai...
como ousa dizer pai?’. ‘Marina deixe de ser ridícula, sou
e sempre serei o seu pai. Aconteça o que acontecer daqui pra frente nada muda
isso’. Dei quase um grito abafado, sentia uma dor quase física, como se me
tivessem serrando o braço e ninguém pudesse senão me olhar sendo desmembrada.
Ele preocupou-se, ‘minha filha posso te ligar depois, estou vendo que está
muito mal com toda essa história, te darei tempo de absorver tudo, sei que é
muito para você. Estou muito triste também, mas talvez falte em você a sordidez
da vida adulta, que em mim já foi tão pisoteada. Você é como uma flor que ainda
desabrocha, nunca pegou vento forte como esse que lhe arrancasse as raízes como
acontece agora’. Arrancando as raízes... que curioso, o escritor falava por
André em palavras até bonitas, será que ele tinha mesmo a noção da extensão
dessa dor? Será que ele sabia que a vida da
gente não é um romance, uma performance artística? ‘Minha
filha, quero que saiba que naquele momento, tomei a decisão em nome de muitas
pessoas, e não só pensando em mim. A sua mãe me exigia muito, a sua avó me crucificava’.
Num sobressalto eu disse, ‘não coloque o nome da minha mãe no meio dessa
sujeira!’. Ele se assustou, ‘pois ela é tão culpada quanto eu, podia até se
fazer de sonsa, fingindo não saber a origem de você criança, mas no fundo ela
sempre soube’. ‘André, não ouse não me massacre mais do que você está fazendo,
não me faça ter mais ódio de você do que aquele que já sinto agora dentro de
mim. Não suje a imagem de mamãe que sofreu tanto com você. Pensa que não sei de
suas traições com Matilde?’. ‘Marina, não misture as coisas,
vamos tratar de um problema de cada vez. Não quero e nem posso me justificar com
você, tem todo o direito de estar zangada. Mas não pense minha querida, que
todos nós não somos humanos’. A verdade é que minha decepção maior talvez tenha
sido exatamente essa a de descobrir que não havia pai e mãe perfeitos. A imagem
de Deus estava quebrada. ‘André, porque exatamente me ligou se não quer perdão?’. ‘Quero que você volte pra casa minha querida, não
espero que você me perdoe por telefone, isso só será construído no dia-a-dia,
nós sentados na biblioteca, lendo juntos, ou desenhando como antigamente,
lembra?’. De repente a figura do pai voltava
segurando minha mão nas tardes de domingo com sorvete. Comecei a chorar
copiosamente como se isso fosse ainda possível, porque ele estava fazendo isso
comigo? Dava e tirava de mim o pai que era,
arrancava meu braço e depois vinha com a linha de sutura tentando costurar
tudo. ‘André, eu preciso ficar um tempo sozinha, além do que já tenho vinte e
cinco anos, já estava na hora de ir morar sozinha. Tudo isso só me fez ver que
agora preciso seguir minha vida longe de vocês’. ‘Marina, não faça isso comigo,
logo agora que estou ficando velho, estou precisando de você’. Ah então era
isso, o problema era que ELE ia ficar sozinho, estava cagando para o meu
sofrimento, o problema era que ele estava velho e precisava de alguém para lhe
trocar as fraldas. Senti um ódio repentino por aquela figura, e comecei a
imaginar se tudo tivesse sido diferente, se a vida tivesse sido construída a
partir de Roberto. Como eu teria sido? De que coisa
gostaria? Qual seria o meu mundo? Seria mais eloquente, mas sincera, mais esperta?
Desligamos o telefone depois de um tempo
tentando explicar os porquês de todas aquelas inexplicáveis situações da vida.
Só agora vendo a lua clarear nessa noite sem vendo que acalmado um pouco o
espírito, consigo colocar os dois irmãos no mesmo saco. Posso tirá-los ora um
ora outro, olhar em cada um dos olhos e perceber o mesmo verde, e saber o mesmo
rosto, posso ver o mesmo egoísmo que talvez nem me digam mais respeito. Por
enquanto, quero apenas ficar aqui nessa noite inundada pela lua, sentada no
terraço como se o amanhã não precisasse acontecer. Poderia ficar aqui talvez
mais uns duzentos anos. Até lá outras atmosferas tenham nascido, e eu talvez me
solucione, sem precisar tomar na verdade nenhuma solução.
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