domingo, 6 de outubro de 2013

                http://lounge.obviousmag.org/por_tras_do_espelho/2012/07/19/foto11.jpg
Como eu teria sido?

Recebi duas ligações uma pela manhã e outra já no cair da tarde. Não posso dizer que uma me assustou menos que a outra, pois ambas me deixaram como que um gosto ruim na boca. E, no entanto, agora já com a noite densa me consumindo sinto como um prazer estranho. Finalmente um pouco de lucidez começa a entrar no meu espírito e eu sinto como se entendesse enfim. Talvez até um pouco mais do que isso, talvez agora eu compreenda que não poderei segurar com minhas próprias mãos os cursos do destino, e que não poderia, ter feito isso quando menina. É um sossego que me vem por não ser mais a responsável. O que sinto é uma espécie de liberdade como se não me coubesse mais ter todas as respostas. Isso facilita tudo.

O primeiro a ligar foi Roberto. No meio de sua interlocução de homem bruto, vi que era na verdade muito frágil. Permaneci a maior parte do tempo em silêncio. Dei a ele a possibilidade de falar o que quisesse em princípio porque não me interessava ouvi-lo. Mas depois fui foi tomada de certo amor por aquele tio a qual nunca me apeguei. Ele me disse: ‘Marina, você tem que entender que quando a gente é moço comete muitos erros’. ‘Eu mesmo quando tinha a sua idade fiz muitas besteiras, a pior delas talvez tenha sido essa que agora causou a bagunça toda em nossa família’. ‘Não venho e não quero o seu perdão, não porque não ache que mereça, mas porque não tenho o direito de pedi-lo, porque sei que se voltasse lá naqueles tempos faria tudo novamente’. Eu o escutava engolindo os soluços que me subiam até a garganta, as lágrimas me escorriam quase doces sem pedirem para sair. ‘Minha querida, eu não espero que você me entenda e passe a me tratar diferente do que tem sido até agora’. ‘Sei das dificuldades todas de André para te criar e fico contente dele ter dado conta de te transformar na mulher que você é hoje. Dá-me certo alívio, pois teve um tempo em que achei que ele não fosse dar conta’. Eu que depois de todas as revelações achei que Roberto na verdade nunca se importara, escutava todas aquelas palavras silenciada pela vida, pensando que talvez eu pudesse cometer os mesmos erros. A seu modo rude, ele me dava sinais de amor e cuidado. Um mistura de aprofundamentos que eu não compreendia ódio e gostar misturados. ‘Quero que você saiba que não justifico meus atos tentando fazer com que você venha a ser agora o que não pode mais. Quero que você saiba que não fiz pensando em você, em André, em ninguém. Em princípio quando se é jovem minha pequena se pensa é na gente mesmo’. Achei-o corajoso por assumir o seu egoísmo, vinha clara a imagem de um ser humano qualquer que agora entregava sem necessidade as suas fraquezas. Falei, ‘Roberto, não se preocupe com o que eu acho ou deixei de achar sobre a sua pessoa, já não tem mais importância, porque nada mudará naquilo que chamamos de família’. ‘Não espere que eu crie de um dia pro outro afeto por alguém que nunca tive’. Nessas palavras eu me igualava à sua rudeza como que para mostrar que fizéssemos o que fizéssemos, fossemos quem fossemos a peça fundamental que formava a nossa identidade vinha de outros tempos, guardada na genética encontrava-se o princípio que criação nenhuma abalaria. Ele falou por quase duas horas seguidas, contou detalhes sórdidos de sua vida, esmiuçou as suas desgraças, não sei se na ânsia de se fazer compreender, ou se na tentativa de me fazer ter pena dele. Eu como uma criança queria colo, talvez o olhar de mamãe me dizendo que ficaria tudo bem. Poderia depois de aquela conversação deitar de bruços na cama e chorar por horas a fio. Talvez não, estava exausta, todas as minhas energias psicológicas haviam sido sugadas. O que desejei por fim era não ter que pensar, era um vazio, um silêncio cósmico e transcendente que entrasse em mim e ocupasse a matéria que eu estava sendo. Como quando se bebe muito, e pode deixar o corpo seguir seu rumo sozinho. O que eu precisava na verdade não poderia colocar aqui, porque era grande e inexplicável. E depois tinha a pergunta, ‘E agora o que fazer de mim?’. Estava órfã de pai e de mãe. Passei toda a tarde tentando metabolizar essa primeira e tão pouco elucidativa conversa com Roberto. Quando já no cair da noite, liga André, já um tanto desesperado com meu sumiço inconsequente a seus olhos. Demorei a atendê-lo, ele deve ter ligado no mínimo umas três vezes antes que eu tomasse coragem, antes que eu tivesse forças, pois estava esgotada. Mas pensei que se fosse para passar por catarse como aquela que fosse tudo de uma vez, bebida em goles longos e aturdidos. ‘Marina, você não pode fazer isso comigo, lembre-se de que ainda sou seu pai’. Ouvi-lo falar isso me sacrificava. Senti pela primeira vez como se estivesse amputada de um braço. A palavra pai me deixava tonta, pela primeira vez a clareza de que eu estava sem uma parte do meu próprio corpo, havia perdido. Qualquer coisa dentro de mim havia ido embora, e sem o braço do pai tentava agarrar qualquer figura que outrora me lembrasse desse mito, quase o mito de Deus. Disse: ‘Pai... como ousa dizer pai?’. ‘Marina deixe de ser ridícula, sou e sempre serei o seu pai. Aconteça o que acontecer daqui pra frente nada muda isso’. Dei quase um grito abafado, sentia uma dor quase física, como se me tivessem serrando o braço e ninguém pudesse senão me olhar sendo desmembrada. Ele preocupou-se, ‘minha filha posso te ligar depois, estou vendo que está muito mal com toda essa história, te darei tempo de absorver tudo, sei que é muito para você. Estou muito triste também, mas talvez falte em você a sordidez da vida adulta, que em mim já foi tão pisoteada. Você é como uma flor que ainda desabrocha, nunca pegou vento forte como esse que lhe arrancasse as raízes como acontece agora’. Arrancando as raízes... que curioso, o escritor falava por André em palavras até bonitas, será que ele tinha mesmo a noção da extensão dessa dor? Será que ele sabia que a vida da gente não é um romance, uma performance artística? ‘Minha filha, quero que saiba que naquele momento, tomei a decisão em nome de muitas pessoas, e não só pensando em mim. A sua mãe me exigia muito, a sua avó me crucificava’. Num sobressalto eu disse, ‘não coloque o nome da minha mãe no meio dessa sujeira!’. Ele se assustou, ‘pois ela é tão culpada quanto eu, podia até se fazer de sonsa, fingindo não saber a origem de você criança, mas no fundo ela sempre soube’. ‘André, não ouse não me massacre mais do que você está fazendo, não me faça ter mais ódio de você do que aquele que já sinto agora dentro de mim. Não suje a imagem de mamãe que sofreu tanto com você. Pensa que não sei de suas traições com Matilde?’. ‘Marina, não misture as coisas, vamos tratar de um problema de cada vez. Não quero e nem posso me justificar com você, tem todo o direito de estar zangada. Mas não pense minha querida, que todos nós não somos humanos’. A verdade é que minha decepção maior talvez tenha sido exatamente essa a de descobrir que não havia pai e mãe perfeitos. A imagem de Deus estava quebrada. ‘André, porque exatamente me ligou se não quer perdão?’. ‘Quero que você volte pra casa minha querida, não espero que você me perdoe por telefone, isso só será construído no dia-a-dia, nós sentados na biblioteca, lendo juntos, ou desenhando como antigamente, lembra?’. De repente a figura do pai voltava segurando minha mão nas tardes de domingo com sorvete. Comecei a chorar copiosamente como se isso fosse ainda possível, porque ele estava fazendo isso comigo? Dava e tirava de mim o pai que era, arrancava meu braço e depois vinha com a linha de sutura tentando costurar tudo. ‘André, eu preciso ficar um tempo sozinha, além do que já tenho vinte e cinco anos, já estava na hora de ir morar sozinha. Tudo isso só me fez ver que agora preciso seguir minha vida longe de vocês’. ‘Marina, não faça isso comigo, logo agora que estou ficando velho, estou precisando de você’. Ah então era isso, o problema era que ELE ia ficar sozinho, estava cagando para o meu sofrimento, o problema era que ele estava velho e precisava de alguém para lhe trocar as fraldas. Senti um ódio repentino por aquela figura, e comecei a imaginar se tudo tivesse sido diferente, se a vida tivesse sido construída a partir de Roberto. Como eu teria sido? De que coisa gostaria? Qual seria o meu mundo? Seria mais eloquente, mas sincera, mais esperta?

Desligamos o telefone depois de um tempo tentando explicar os porquês de todas aquelas inexplicáveis situações da vida. Só agora vendo a lua clarear nessa noite sem vendo que acalmado um pouco o espírito, consigo colocar os dois irmãos no mesmo saco. Posso tirá-los ora um ora outro, olhar em cada um dos olhos e perceber o mesmo verde, e saber o mesmo rosto, posso ver o mesmo egoísmo que talvez nem me digam mais respeito. Por enquanto, quero apenas ficar aqui nessa noite inundada pela lua, sentada no terraço como se o amanhã não precisasse acontecer. Poderia ficar aqui talvez mais uns duzentos anos. Até lá outras atmosferas tenham nascido, e eu talvez me solucione, sem precisar tomar na verdade nenhuma solução.

Nenhum comentário: