quarta-feira, 9 de outubro de 2013

                

O grande risco

De repente e se mais nada precisasse ser dito? Estava cansado de ter que argumentar as suas mil conclusões, de ter que dar desculpas sobre todos os acontecimentos. De repente começou a pensar nessa urgência da vida que exige sempre que ao encontrar alguém seja preciso dizer. De modo que as palavras saíam e saíam sem quase motivo. Preenchiam-se os espaços com medo de que o silêncio causasse qualquer mal-estar. Na verdade, vinha agora um sentimento de que recolher era preciso, obter um minuto qualquer, talvez alguns dias, talvez um ano em que se quedaria silêncio adentro, administrando todas as informações de fora. Que coisa estranha essa vida moderna em que nada era metabolizado, fazer, fazer, fazer como se fosse necessário sempre fazer. É, precisava mesmo de um silêncio momentâneo, estava exausto. Relembrou que seus momentos de epifania só aconteceram de fato quando não tivera que pensar. Os seus melhores contos vieram assim como de um rompante desse esquecimento da vida. Esquecia-se para só depois poder lembrar. Por exemplo, aquela crônica que fizera para o Jornal, tantas vezes aplaudida pela crítica, saiu de uma tarde em que não havia esperanças. Andando pela praça florida de repente se despertou para algo grande e bonito. Dera-se tempo. Ainda que não soubesse esperou para que seu corpo e espírito sozinhos construíssem juntos todas as palavras. Não precisou se esforçar, não precisou dizer, ou gritar. A urgência seca a gente, concluiu. Começou a pensar também sobre como é arriscado se libertar da fala. Pensava estar em constante risco com Marina, pensava que havia mesmo se arriscado quando pegara a menina dos braços de Roberto. Um bebê tão indefeso que nada tinha a ver nem com um nem com outro. Mas a verdade é que os maiores riscos que poderia correr, não estava nas ações, ao contrário. Era mais arriscado viver. Por exemplo, outro dia viu algumas pessoas que faziam uma aula de ioga ao ar livre, de repente teve medo. E se o chamassem? Verdadeiro risco seria de cabeça erguida ir lá se sentar junto com os outros para meditar. Entregar-se-ia às comparações alheias, se sujeitaria a uma possível vergonha, estaria nu num risco muito grande de ser ele mesmo. De resto, com as outras coisas e Marina se incluía nelas podia representar. A máscara do pai presente ou ausente o salvava. Talvez Marina nunca adivinhasse quem realmente era ele, ser humano desnudo. Talvez um dia se a chamasse para dançar um tango argentino com ele, ela descobrisse surpresa e amedrontada quem era ele. Do contrário, poderia vestir as suas máscaras e se mostrar forte ou fraco não importava, mas não ele. Isso dava segurança para ligar para ela e dizer que deveria ser perdoado. Se houvesse uma dança ele jamais teria essa coragem.  O risco, pensou, estava nesses instantes em que desprotegidos da máscara não dizíamos nem raciocinávamos. O risco mesmo não era ter contado para Marina sobre seu passado, nem o fato de ela ter saído de casa, talvez nunca mais voltasse, mas o risco mesmo era se mostrar para ela sem as máscaras. E, talvez só assim ela o perdoaria. Para tanto, deveria nascer de novo e de novo, tantas vezes quanto possível. Deveria ser mais forte que Deus. Que engraçado, só bem no íntimo Deus era desprovido de máscaras. Não esse Deus que as pessoas achavam conhecer. Mas aquele Deus para o qual choramos baixinho, confessos e entendidos de que ele também poderia cometer os mesmos erros. Risco mesmo não era escrever as críticas mais sórdidas para o Jornal, risco era ter a coragem de subverter a linguagem. Risco não era desenhar paisagens, mas conseguir com maestria pintar um quadro todo azul. As pessoas talvez pensassem, e até ele mesmo, que estavam constantemente correndo o risco de viver. Mas a verdade é que não vivam e logo não se arriscavam. Ir da casa para o trabalho, ir à padaria comprar o pão, acordar cedo e voltar tarde, talvez alguém o assaltasse? Talvez tivesse um acidente de trânsito? Nada disso era comparável com o risco de matar uma segunda-feira de trabalho sem motivo aparente. Risco era não se importar com as consequências dessas pequenas ações das quais não conseguíamos nos desprender. As grandes Revoluções aconteceram nessa ordem do entendimento, e não segurando cartazes em marcha pelas ruas da cidade. As grandes revoluções aconteceram antes de tudo na margem desse pensamento que era permitido fazer o contrário de uma segunda-feira de trabalho. Achou engraçado, talvez estivesse louco, ou talvez ele só estivesse arrumando desculpa para justificar as suas falhas.  Quem se importava? Queria correr o risco.

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