sábado, 29 de dezembro de 2012


                                       

XVII. A felicidade do menino alegre

Deram pra dizer que eu era um menino alegre. Não sei quem inventou ou percebeu essa minha característica, mas sempre que me viam algumas tias de minha mãe ou as vizinhas de me avó apertavam minha bochecha e cheias de risos se confessavam mais felizes, só porque tinham me encontrado. Eu que sempre fora um menino grave por dentro, sabendo já dessa minha seriedade, apeguei-me àquelas opiniões e adotei-as como estilo de vida. Desde lá dessa época de meus cinco ou seis anos fazia palhaçadas, contava piadas, vestia-me com as gravata e ternos de papai, fazia teatros, tudo para angariar aquelas gargalhadas que era tão inerentes a mim que também eu me sentia como espectador das peripécias.  E assim sucederam os anos, todos me queriam em festas, casamentos, batizados, porque segundo as mais calorosas moçoilas eu tinha uma luz própria.

Isso se deu até o dia do aniversário de 100 anos de vovó, eu lá cantando para animá-la e fazê-la esquecer de sua debilidade, quando de repente a senhora com sua voz imponente manda parar a música. Olhou-me com serenidade e disse me encarando com profunda condescendência: ‘Você é tão triste, Júlio, nunca vi menino mais sério que você, meu filho’. Sorriu-me, foi a primeira e a última vez que a vi sorrindo. Os outros mandaram logo ligar o som, pouco se importaram com o acontecido, vovó já andava meio caduca. Mas aquele talvez tenha sido um dos únicos momentos de lucidez em minha vida, e vovó a única que realmente me conheceu. Que ironia, saí da festa, feliz. A felicidade que eu ‘o menino mais alegre do mundo’ nunca tinha sentido.

PS.: Imagem de Floriano Araújo Teixeira. Fonte: Itaú Cultural. Coleção Jorge Amado, 1998. 

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