sábado, 26 de maio de 2012



      
VII.  Gavetas de camisa

Abriu a gaveta, espreitou atenta por entre as blusas que se organizavam por ordem de cor. Procurava um pouco aflita por indícios que lhe provassem os delitos, que lhe respondessem as escolhas, e afirmassem as decisões. Teve medo. Quem procura está sempre por achar o inalcançável. De repente um papel. Sinal de dúvida. Sinal de desespero. Sinal de choro. Um adeus? Então era assim, um adeus guardando papel em gaveta de camisa? Porque não a palavra? Por que não os olhos alcançando a explicação, inexplicável? O escrito: ‘ A nossa vida, Heloísa, foi apenas um barco que agora segue maré bem longe da minha enseada’. Porque esse afastamento, porque esse infantil abandono do que antes fora o coração ardendo. Raiva. Até que ele entra. O flagra: ‘O que você está fazendo Heloísa?’.Descobrindo a sua verdade Ricardo.                 "Verdades são sempre relativas, minha pequena. Remexa mais fundo nessas dores’. E eis que procurando salvar o que já era perdido, bem abaixo da última regata, é dada a sentença em letras garrafais: ‘Ainda te amo, baby’. Sorriso. Felicidade. No entanto, no mesmo papel um subscrito minúsculo não percebido: ‘Desculpe, mas agora te amo apenas como amiga’. Se ela leu essa parte do bilhete?! Ahhh.... (Risos do narrador).

PS.: Imagem: Salvador Dalí. Continuidade de readaptação.


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