VII. Gavetas de camisa
Abriu a gaveta, espreitou atenta por entre as blusas que se
organizavam por ordem de cor. Procurava um pouco aflita por indícios que lhe
provassem os delitos, que lhe respondessem as escolhas, e afirmassem as decisões.
Teve medo. Quem procura está sempre por achar o inalcançável. De repente um
papel. Sinal de dúvida. Sinal de desespero. Sinal de choro. Um adeus? Então era
assim, um adeus guardando papel em gaveta de camisa? Porque não a palavra? Por
que não os olhos alcançando a explicação, inexplicável? O escrito: ‘ A nossa
vida, Heloísa, foi apenas um barco que agora segue maré bem longe da minha
enseada’. Porque esse afastamento, porque esse infantil abandono do que antes
fora o coração ardendo. Raiva. Até que ele entra. O flagra: ‘O que você está
fazendo Heloísa?’.Descobrindo a sua verdade Ricardo. "Verdades são sempre
relativas, minha pequena. Remexa mais fundo nessas dores’. E eis que
procurando salvar o que já era perdido, bem abaixo da última regata, é dada a
sentença em letras garrafais: ‘Ainda te amo, baby’. Sorriso. Felicidade. No
entanto, no mesmo papel um subscrito minúsculo não percebido: ‘Desculpe, mas
agora te amo apenas como amiga’. Se ela leu essa parte do bilhete?! Ahhh....
(Risos do narrador).
PS.: Imagem: Salvador Dalí. Continuidade de readaptação.

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