VI. Corpo obediente
Esperou por horas na porta de seu coração aflito, até que dando
meio volta seguiu o estreito caminho guardado de pequenos pedregulhos. Já na
varanda, observou as montanhas por detrás da grande grade azul que davam à
entrada daquele casarão um ar quase febril. Cássio ainda não voltara da noite
de ontem, e ali bem onde estava moravam certezas sobre seu sossegado paradeiro.
Apenas disse ao sair engolido pela escuridão sem lua: ‘Hoje não volto para
dormir em casa’. Ela pouco interrogativa apenas soube dizer já sem autoridade:
‘Não demore muito, que o café estará na mesa logo cedo’. Fazia parte da sua não
inquisição, a promessa de que o deixaria livre, e que os seus acessos femininos
de ciúmes teriam fim. Agora, no entanto, se perguntava se deixá-lo assim tão
livre era o mais correto a fazer. Deveria ter bradado com ele, deveria ter
implorado para que não fosse, afinal, se estavam juntos há quase três anos é
porque no fundo ele gostava desse seu controle. Pensava que depois da promessa,
podia apenas supervisioná-lo à surdina, com o olhar atento de quem já premedita
por acontecimentos nada corriqueiros. Certa vez ele disse: ‘Mas Valquíria, eu
nunca te dei motivos pra duvidar de mim, porque desconfia tanto?’. Ela soltava
sempre a mesma resposta já calculada: ‘Não é desconfiança, Cássio, é cuidado,
nunca vai entender’. E assim viveram rebolando os anos, em pequenas discussões,
que não pronunciavam nada mais que a passividade angustiada de um homem perdido
nos devaneios de uma mulher. Não sei se posso precisar quando foi o derradeiro
dia em que chegando exausto do trabalho ele perguntou: ‘Você ainda me ama?! Às
vezes sinto que não me ama mais Valquíria, aliás, às vezes sinto que nunca me
amou’. Ela assustada, começou novamente os impropérios comuns para essas
ocasiões: ‘Do que você está falando, meu bem?! Não fiz outra coisa nessa minha
vida, do que te amar. Duvide de tudo, menos do meu sentimento por você’. Foi
então que a fala dele cruzou uma fronteira nunca antes sabida por ambos: ‘Se
você me ama de verdade, minha pequena, será capaz de me deixar ir embora. Estou
com passagens compradas para amanhã’. Ela: ‘Mas que bobagem é essa, Cássio?! Não
se larga um casamento assim, de uma hora pra outra sem avisar e eu?!
Prometo-lhe que não vou mais implicar com você’. Ele: ‘Promete mesmo?’. Ela: ‘Prometo’.
Foi por isso, que ele saíra na noite de ontem, sem avisar, e foi
por isso que ela não soube fazer outra coisa do que guardar as injúrias para si.
Mas como sabemos bem, água não vira vinho assim tão de repente. Antes que ele
saísse, ela planejara uma emboscada. Dois sujeitos encapuzados o encurralaram a
beira da estrada, e fim. Agora ela aguardava atenta e tranquila pela chegada
dele ao cair da noite. Enterrá-lo-ia debaixo da amendoeira, certa de que ele
nunca mais a desobedeceria.
Ps.: Imagem: Picasso. Continuação dos contos.

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