terça-feira, 22 de maio de 2012



   VI.            Corpo obediente

Esperou por horas na porta de seu coração aflito, até que dando meio volta seguiu o estreito caminho guardado de pequenos pedregulhos. Já na varanda, observou as montanhas por detrás da grande grade azul que davam à entrada daquele casarão um ar quase febril. Cássio ainda não voltara da noite de ontem, e ali bem onde estava moravam certezas sobre seu sossegado paradeiro. Apenas disse ao sair engolido pela escuridão sem lua: ‘Hoje não volto para dormir em casa’. Ela pouco interrogativa apenas soube dizer já sem autoridade: ‘Não demore muito, que o café estará na mesa logo cedo’. Fazia parte da sua não inquisição, a promessa de que o deixaria livre, e que os seus acessos femininos de ciúmes teriam fim. Agora, no entanto, se perguntava se deixá-lo assim tão livre era o mais correto a fazer. Deveria ter bradado com ele, deveria ter implorado para que não fosse, afinal, se estavam juntos há quase três anos é porque no fundo ele gostava desse seu controle. Pensava que depois da promessa, podia apenas supervisioná-lo à surdina, com o olhar atento de quem já premedita por acontecimentos nada corriqueiros. Certa vez ele disse: ‘Mas Valquíria, eu nunca te dei motivos pra duvidar de mim, porque desconfia tanto?’. Ela soltava sempre a mesma resposta já calculada: ‘Não é desconfiança, Cássio, é cuidado, nunca vai entender’. E assim viveram rebolando os anos, em pequenas discussões, que não pronunciavam nada mais que a passividade angustiada de um homem perdido nos devaneios de uma mulher. Não sei se posso precisar quando foi o derradeiro dia em que chegando exausto do trabalho ele perguntou: ‘Você ainda me ama?! Às vezes sinto que não me ama mais Valquíria, aliás, às vezes sinto que nunca me amou’. Ela assustada, começou novamente os impropérios comuns para essas ocasiões: ‘Do que você está falando, meu bem?! Não fiz outra coisa nessa minha vida, do que te amar. Duvide de tudo, menos do meu sentimento por você’. Foi então que a fala dele cruzou uma fronteira nunca antes sabida por ambos: ‘Se você me ama de verdade, minha pequena, será capaz de me deixar ir embora. Estou com passagens compradas para amanhã’. Ela:         ‘Mas que bobagem é essa, Cássio?! Não se larga um casamento assim, de uma hora pra outra sem avisar e eu?! Prometo-lhe que não vou mais implicar com você’. Ele: ‘Promete mesmo?’. Ela: ‘Prometo’.
Foi por isso, que ele saíra na noite de ontem, sem avisar, e foi por isso que ela não soube fazer outra coisa do que guardar as injúrias para si. Mas como sabemos bem, água não vira vinho assim tão de repente. Antes que ele saísse, ela planejara uma emboscada. Dois sujeitos encapuzados o encurralaram a beira da estrada, e fim. Agora ela aguardava atenta e tranquila pela chegada dele ao cair da noite. Enterrá-lo-ia debaixo da amendoeira, certa de que ele nunca mais a desobedeceria.

Ps.: Imagem: Picasso. Continuação dos contos.

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