V.
Ovo
da vida
Nasceu de um ovo chocado às pressas, a mãe tão logo percebeu
que o embrião já estava pronto, largou-o à revelia num buraco na terra ao fim
do quintal e pôde, finalmente, vagar livre da obrigação materna. Bebê ainda sem
nome esforçou-se muito para quebrar sozinha a casca calcária e desabrochar
solitária para o clarão da vida. Ainda desajeitada, pôs-se a esticar os braços
e as pernas que restavam doloridos dos nove meses dentro do ovo. Contudo,
bastaram alguns alongamentos para que estivesse pronta a correr e brincar pelos
arvoredos do terreiro. Diferente das outras espécies de mamíferos, essa da qual
fazia parte, já vinha ao mundo sabendo andar, falar e comer, indiferente aos
cuidados parentais. Mas não se enganem essa característica não significava que
já estivessem prontos para a vida. Aliás, pode ser que os outros tantos
humanóides que nasciam todos os dias já estivessem preparados, mas ela soube
desde que viu a luz do sol que não poderia ser sozinha e que não viera agraciada
com a independência de espírito.
Foi, por isso, que imediatamente após ter saído do ninho
começou a procurar desesperada pelo seio da mãe, enquanto via seus irmãos,
nascidos da mesma ninhada, ajeitarem-se solitários nas tetas de uma gata e de
uma cadela que vagavam por ali. Os outros eram tão soltos no mundo e tão
desprendidos que só de olhá-los vigorosos correndo na terra vermelha tinha
certas vertigens. Quero deixar claro que o seu medo não era o de não ter uma
mãe que lhe desse o peito, mas de não ter a destreza de com as próprias pernas
correr o risco de buscar o leite. Dessa maneira, o trauma que carrega, desde
esta mais tenra infância, tem menos a ver com a figura da mãe, do que com a
própria inabilidade de ser o que é. Entretanto, como para tudo na vida é
preciso identificar um culpado não poderia ser de outro modo que
instintivamente voltou-se contra a origem de seu cordão umbilical. Todas as
suas revoltas tinham um fundamento naqueles primeiros dias em que se viu
sozinha à beira da estrada.
A pergunta talvez seja: Quando? Quando realmente existiu a ruptura
entre o afago não sentido. Teve que matar a mãe dentro de si, para que sozinha
pudesse viver toda a sua inexatidão. Quanto disso realmente fez parte do
crescimento, ou foi apenas a tentativa mais sensata de conseguir mascarar os
defeitos de quem esperou não ter defeitos? Mas se assim o é, porque a culpa?
Por não ter tido a capacidade de recebê-la imperfeita?
Fato é que seguindo os cursos já traçados do destino, também
chegou a hora de chocar seu próprio filho, e guardando aquele rancor inicial,
tomou para si a responsabilidade de não deixar que sua cria tivesse que
sobreviver sozinha. Aguardou ansiosa pelo tempo gestacional, esperou fazendo
roupinhas para que o menino não tivesse frio, ajeitou o berço, o bico, as
fraldas. Só que _ Ah! Nós sabemos disso melhor do que ela_ tem certos caminhos
que não podem ser planejados e correm despropositados de qualquer vontade
aparente.
Sucedeu-se que tão logo nasceu o menino ainda meio tonto foi
ter-se solitário deixando para trás toda aquela preparação. Corria livre,
enquanto a mãe tentava prendê-lo em seus bibelôs, bradando com ele para que não
sujasse na terra, para que não mamasse na gata, para que não andasse descalço.
E assim, passado o tempo, ele já crescido, prometeu-se que não
deixaria seu próprio filho cercado de mimos. Certo de que essa atitude seria o
melhor a fazer pela prole.
Ah...! Como a existência segue ciclos idênticos! Vale sempre
lembrar, não sem prejuízos.
PS.: _Imagem da Tai Nunes para a exposição Orvalho, acontecida no Centro Cultural da UFMG, em novembro do ano passado.
_Continuação dos contos.

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