sábado, 19 de maio de 2012




V.                    Ovo da vida

Nasceu de um ovo chocado às pressas, a mãe tão logo percebeu que o embrião já estava pronto, largou-o à revelia num buraco na terra ao fim do quintal e pôde, finalmente, vagar livre da obrigação materna. Bebê ainda sem nome esforçou-se muito para quebrar sozinha a casca calcária e desabrochar solitária para o clarão da vida. Ainda desajeitada, pôs-se a esticar os braços e as pernas que restavam doloridos dos nove meses dentro do ovo. Contudo, bastaram alguns alongamentos para que estivesse pronta a correr e brincar pelos arvoredos do terreiro. Diferente das outras espécies de mamíferos, essa da qual fazia parte, já vinha ao mundo sabendo andar, falar e comer, indiferente aos cuidados parentais. Mas não se enganem essa característica não significava que já estivessem prontos para a vida. Aliás, pode ser que os outros tantos humanóides que nasciam todos os dias já estivessem preparados, mas ela soube desde que viu a luz do sol que não poderia ser sozinha e que não viera agraciada com a independência de espírito.
Foi, por isso, que imediatamente após ter saído do ninho começou a procurar desesperada pelo seio da mãe, enquanto via seus irmãos, nascidos da mesma ninhada, ajeitarem-se solitários nas tetas de uma gata e de uma cadela que vagavam por ali. Os outros eram tão soltos no mundo e tão desprendidos que só de olhá-los vigorosos correndo na terra vermelha tinha certas vertigens. Quero deixar claro que o seu medo não era o de não ter uma mãe que lhe desse o peito, mas de não ter a destreza de com as próprias pernas correr o risco de buscar o leite. Dessa maneira, o trauma que carrega, desde esta mais tenra infância, tem menos a ver com a figura da mãe, do que com a própria inabilidade de ser o que é. Entretanto, como para tudo na vida é preciso identificar um culpado não poderia ser de outro modo que instintivamente voltou-se contra a origem de seu cordão umbilical. Todas as suas revoltas tinham um fundamento naqueles primeiros dias em que se viu sozinha à beira da estrada.
A pergunta talvez seja: Quando? Quando realmente existiu a ruptura entre o afago não sentido. Teve que matar a mãe dentro de si, para que sozinha pudesse viver toda a sua inexatidão. Quanto disso realmente fez parte do crescimento, ou foi apenas a tentativa mais sensata de conseguir mascarar os defeitos de quem esperou não ter defeitos? Mas se assim o é, porque a culpa? Por não ter tido a capacidade de recebê-la imperfeita?

Fato é que seguindo os cursos já traçados do destino, também chegou a hora de chocar seu próprio filho, e guardando aquele rancor inicial, tomou para si a responsabilidade de não deixar que sua cria tivesse que sobreviver sozinha. Aguardou ansiosa pelo tempo gestacional, esperou fazendo roupinhas para que o menino não tivesse frio, ajeitou o berço, o bico, as fraldas. Só que _ Ah! Nós sabemos disso melhor do que ela_ tem certos caminhos que não podem ser planejados e correm despropositados de qualquer vontade aparente.

Sucedeu-se que tão logo nasceu o menino ainda meio tonto foi ter-se solitário deixando para trás toda aquela preparação. Corria livre, enquanto a mãe tentava prendê-lo em seus bibelôs, bradando com ele para que não sujasse na terra, para que não mamasse na gata, para que não andasse descalço.

E assim, passado o tempo, ele já crescido, prometeu-se que não deixaria seu próprio filho cercado de mimos. Certo de que essa atitude seria o melhor a fazer pela prole.

Ah...! Como a existência segue ciclos idênticos! Vale sempre lembrar, não sem prejuízos.                    


PS.: _Imagem da Tai Nunes para a exposição Orvalho, acontecida no Centro Cultural da UFMG, em novembro do ano passado.
_Continuação dos contos. 

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