
É só uma questão de identidade.
Ela disse isso olhando nos olhos dele, tremendo pela força que ele lhe colocara no braço. Ele sempre a segurava assim, quando sentia medo das confissões que ia fazer.
O que ele não sabia, é que ela já imaginava outras histórias e aquelas, as que ele lhe contava em meio a medos e espantos, ela já sabia de cor e saltiado, ou pelo menos já pressentira em algum momento da vida.
É só uma questão de identidade, repetiu ela.
Ele ainda confuso tentava reafirmar a sua masculinidade tão feminina e o seu amor já confesso a ela. E ela meio atribulada, mas com calma explicava o que ambos em pensamento já sabiam. Que era só uma questão de identidade. Quem em verdade masculino e feminino eram apenas faces de uma mesma moeda, já enterrada e desenterrada tantas vezes naquelas confusas conclusões.
- O que quero de ti é somente lealdade meu bem.
Disse olhando para ele que já começava a entrar em prantos, pensando que a tragédia da dúvida serviria para arruinar sensações, para destruir tudo. Mal sabia ele que as coisas já vêm escritas.
- O que desejo de ti é o que tem de verdade. O que gostas e o que não gostas, a mim não me interessa. Te amo, assim ou assado, sem mim ou 'com mim'.
E ele tentava explicar que para tanto o pensamento já serviria, que uma traição já vale, em si se for calculada e medida nas belezas de algum outro. E que ele havia escorregado, e que estava sentindo sensações que nunca tivera. E que.. e que...
- Basta!
- Desculpe, minha linda...
Ele recomeçou, não se sabe se por um interesse inoscente ou se por querer que ela também tivesse que ter alguma culpa naquilo tudo.
-E você, minha linda, já se interessou por outra mulher?
- An?!
- É ... só curiosidade...
- Não meu bem, nunca senti nada.
- Sério?
- Sério, mas porque isso agora?
- Porque acho que devo ter errado em algum ponto.
- Querido, essa sua ética confusa me atordoa, me sufoca. Esse constante reafirmar... que bobagem é essa. Isso tudo é só uma questão de identidade. Te gosto de qualquer jeito e ponto. E agora vamos dormir.
Ela escorregou para o outro lado da cama, fechou o livro , lia Madame Bovary do Flaubert, desligou o abajur.
- Amor?
- Você ainda não dormiu querido, o que que foi?
- Me deitei com um homem ontem.
- Eu já sabia.
- Mas como?
- As mulheres sabem dessas coisas....
- Tô me sentindo um lixo. Mas prometo que nunca mais..
- Não me prometa nada. Vamos dormir , que amanhã será um novo dia.
-Boa noite minha linda.
- Eu te amo meu querido.
PS.: Para o meu feminismo de gaveta, tantas vezes confundido... ich tenho uma preguiça das pessoas... Em defesa do livre escrever!
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