
" [...] E se ele fosse morar longe? Podia se mudar de cidade, viajar. Mas não. Precisava ficar por perto, sempre em redor, olhando-me. Desde pequeno, no berço já me olhava assim. Não precisaria me odiar, eu nem pediria tanto, bastava me ignorar, se ao menos me ignorasse. Era bonito, inteligente, amado, conseguiu sempre fazer tudo muito melhor do que eu, melhor do que os outros, em suas mãos as menores coisas adquiriam outra importância, como que se renovavam. e então? Natural que esquecesse o irmão obeso, malvestido, malcheiroso. Eu era escritor, sim, mas nem aquele tipo de escritor de sucesso, convidado para festas, dando entrevistas na televisão: um escritor de cabeça baixa e calado, abrindo com as mãos em garra seu caminho. Se ao menos ele... mas não, claro que não, desde menino eu já estava condenado ao seu fraterno amor. Às vezes, escondia-me no porão, corria para o quintal, subia na figueira, ficava imóvel, um lagarto no vão do muro, pronto, agora não vai me achar. Mas ele abria portas, vasculhava armários, abria a folhagem e ficava rindo por entre lágrimas. Engatinhava ainda quando saía à minha procura, farejando meu rastro. - rodolfo, não faça seu irmãozinho chorar, não quero que ele fique triste!" para que ele não ficasse triste, só eu soube que ela ia morrer. "você já é grande, você deve saber a verdadedisse meu pai olhando reto nos meus olhos. - É que sua mãe não tem nem...não completou a frase. Voltou-se para a parede e ali ficou de braços cruzados, os ombros curvos. Só eu e você sabemos. Ela desconfia mas de jeito nenhum quer que seu irmãozinho saiba, está entendendo?" eu entendia. Na, sua última festa de aniversário ficamos reunidos em redor da cama. "laura é como o rei daquela história - disse meu pai, dando-lhe de beber um gole de vinho. - mas em vez de transformar tudo em ouro, quando toca nas coisas, transforma tudo em beleza." com os olhos cozidos de tanto chorar, ajoelhei-me e fingindo arrumar-lhe o travesseiro, pousei a cabeça ao alcance da sua mão, ah, se me tocasse com um pouco de amor. Mas ela só via o broche, um caco de vidro que eduardo achou no quintal e enrolou em fiozinhos de arame formando um casulo, "mamãezinha querida, eu que fiz para você!" ela beijou o broche. E o arame ficou sendo prata e o caco de garrafa ficou sendo esmeralda. foi o broche que lhe fechou a gola do vestido. Quando me despedi, apertei sua mão gelada contra minha boca, e eu, mamãe, e eu?...
[...] Seu novo livro? - perguntou ele na maior excitação. Encontrara o rascunho em cima da mesa. - posso ler, Rodolfo? Posso? Tirei-lhe as folhas das mãos e fechei-as na gaveta. Era o que me restara: escrever. Será possível que ele também?...não, não é possível, Eduardo - eu disse, tentando abrandar a voz. - Está tudo muito no início, trabalho mal no calor - acrescentei meio distraidamente. Olhei para sua pasta na cadeira e adivinhei a surpresa. Senti meu coração se fechar como uma concha. A dor era quase física. Olhei para ele. - você escreveu um romance. É isso? Os originais estão na pasta... É isso? Ele então abriu a pasta... ".
Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles. Verde Lagarto Amarelo, escrito em 1969.
Ps.: Como uma lagarta amarela, irmã espiritual do Verde Lagarto Amarelo... verdades.. verdades... que verdades? A vida não é feita de ' achos' e sim de fatos. Não é mesmo meu bem?
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