sábado, 7 de março de 2009


Alguma coisa estava prestes a acontecer
Ela sentia
No toque trêmulo das mãos peludas
Na voz enfática e sisuda
Corpo ereto
Na vida falha.

Mas alguma coisa
Sempre estava prestes a acontecer
Como nas curtas memórias
De antigamente
Como se fosse possível
Prever a morte
Imediata e coletiva dos pequenos acontecimentos

Fatos certamente
Que ele nunca poderia perceber
Com seus olhos de touro
Com suas mãos peludas
Sua voz
Seu corpo...

O que ele queria mostrar
Na verdade
Eram outras histórias
E ela sabia

E ele que em pensamento
Escondia
E ela que em seu corpo
Descobria

No fim
Eram dois que pouco se diziam
Mas o silêncio bastava

Ela arrumou as coisas
E ele com a sua calma convulsa
Fumando um cigarro
- Passe apenas mais essa noite comigo.

E ela com os lábios em batom vermelho
Beijou-lhe a testa
Olhou firme nos olhos dele
Verteu uma lágrima
E deu-lhe as costas

Prestes a passar pela porta
Ela largou a mala virou-se para a cama
Ainda com o cheiro daquela história.
Despiu-se.
Um batom vermelho, os seios rijos de frio.

Foi caminhando em direção a ele
Chegou mais perto, mais perto
As pupilas dele se dilatando
A mão peluda
E ela
-Não me toque!

Deitou-se na cama ao lado dele
Queria ter certeza do cheiro
De perfume parado
Que saiam dos grossos pêlos dele.

E não se tocaram
Não se olharam
Um deitado ao lado do outro
Sem dizer palavra.

Havia terminado
O ar confuso confirmava

Ambos arrancaram o coração
Colocaram naqueles lençóis

E ela ia saindo
Indo embora

Tentou evitar
Mas não conseguiu
Pegou uma arma
Olhou para ele
E atirou.

Pegou as coisas
Deu-lhe as costas.
E sumiu no mundo.

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