III. A tão sonhada pedra
filosofal
Dizem que é no sono que podemos transcender o nosso lado mais
terreno e humano, para vagar longe em sonhos desconexos. Os que leem o destino chegam
a insinuar que estariam guardados em nossa mente noturna os segredos para o
futuro, e as nuances não percebidas do passado. Se assim o é, ele não poderia
afirmar com precisão, fato é que ocorria consigo exatamente o contrário.
Eduardo vivia seu estado de inconsciência ao avesso, era ao acordar que começava a
sonhar. Tão logo despertava uma série de borboletas voavam entorno da mãe que
preparava o café, dragões sentavam-se com ele para comer os cereais. Na escola,
a professora transformava-se em bruxa, e em seu dia comum carros e bicicletas
podiam voar. O pátio do colégio era um gigante parque de diversões, seu quarto
um reino com cavaleiros armados, a cidade um grande labirinto onde se podiam
ver fontes de chocolate e lindas princesas. Quando dormia, porém, lá no mais
fundo de seu sono, era apenas um Eduardo comum que fazia tarefas e levava
broncas. É por isso que fazia tanta força pra se manter acordado nesse mundo
mágico dos sonhos. Certo dia, porém, o acúmulo de vários dias sem dormir, fê-lo
cochilar em pé em plena calçada, tornara-se um sonâmbulo. Tudo se misturou.
Terra e céu se fundiram em uma única réstia de espírito. Já não se sabia
sonhando, ou acordado, já não podia distinguir o real do ilusório. Passou a
confundir e a duvidar que isso ou aquilo fosse realmente assim ou assado. Enfim,
sem nem perceber, conseguira a matéria-prima que muitos desejavam para se
tornar um artista...
Ps.: Terceiro conto dos trinta. Inspirado em um texto enviado pela Tai há um bom tempo... "Transcendência: entrevista a Gary Koepke"
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