domingo, 22 de abril de 2012



I.                    Cordas da vida

Tereza, atenta, olha o precipício. Não há conflito, angústias ou lágrimas. Enquanto segura firme a corda, escuta ecoando por entre o desfiladeiro os pedidos de socorro. Pensa se já não é chegada a hora de também pular. Faz uma reflexão tão curta quanto um átimo de segundo ou um piscar de olhos. Decide que não pode se espatifar ao fim da ribanceira. Permanece ereta a segurar o fio que a separa daquele que já caiu. É simples, não pode abandonar o casamento, ou então, já não haverá mais cordas, sufoco, quem caia, quem grite ou quem segure indiferente as rédeas do destino. Seriam apenas dois mortos. E esse não é o final que uma moça pode querer. Tereza, então, ajusta-se cada vez mais a terra, fincada como uma estaca na qual se prende a vida alheia. Orgulhosa de ser ela o monumento do qual ele depende para não se desintegrar definitivamente no fundo e escuro buraco das outras.

PS.: Série de mini-contos que serão publicados semanalmente e estão às voltas com um possível 'livreto'. Começando por 'Tereza' pra marcar os rumos de uma nova reconstrução interior. *Imagem: Picasso, me pareceu um encaixe perfeito.

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