quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Janaína




O espaço dos tons de azul que abriam o céu daquela manhã fez-me encher de uma espécie de alegria gloriosa e calma que só os vencedores e por vezes nós, meros mortais, podemos viver certas horas do dia. Uma mistura de prazer solitário que está em perceber que enfim e mais uma vez se vive. Foi com esse humor primaveril em pleno outono que fui caminhando até a escola que não distava mais que dez minutos da casa onde morávamos papai, mamãe, Dona Antônia, Bernardo _ mais novo que eu cinco anos_ e Orfeu, o gato. Aconteceu que ao me aproximar do colégio a distração do caminho me foi roubada. Vi um aglomerado de meninos, entre colegas e desconhecidos, que se amontoavam uns sobre os outros na tentativa de enxergar algo no centro de uma pequena confusão na portaria.

Lá estava ela. Era alta, magra, olhos azuis, cabelos loiros e encaracolados imitando as bonecas recém lançadas e adquiridas pelas mais abastadas. Contrária a mim não só na aparência, cultivava ainda os bons modos da antiga genealogia européia herdada pela avó vinda diretamente da França, em qualquer tempo muito distante para nós com então onze anos de idade. Para além da admiração que sua beleza provocava até nos mais tímidos, a novidade daquele dia era uma pequena caixinha de jóias que estava em suas mãos no meio da algazarra. No interior do porta-anel havia algo que de tão surpreendente superava qualquer expectativa e gerava uma paradoxal descoberta do impossível. De boca em boca a notícia foi se espalhando no pátio e todos queriam ver, ainda que beirando a incredulidade, o tesouro.

E como toda boa história tem um fundo de inventada, ela começou a dizer aos molecotes que o achado era um privilégio divino para as 'meninas princesas' que se comportavam bem e tiravam boas notas na escola. Era, sem sombra de dúvida, Deus que havia colocado o pequeno animalzinho sobre a fruteira pra que ela pudesse achá-lo. Qual não foi a nossa surpresa, quando entre suas pequenas e alvas mãozinhas, ela abriu com todo cuidado um lado da caixinha e nos deparamos com um joaninha dourada louca para alçar vôo ao menos descuido da dona. Vocês podem imaginar a dificuldade de se achar uma joaninha já naqueles tempos?! Aquele serzinho era artigo de luxo nos jardins, já não se viam por entre as flores ou no gramado, ainda mais uma que tivesse a carapaça toda pintada como se fosse ouro. E na verdade o era, porque a menina se tornou, entre todos nós, a rainha com seu objeto valioso.

Começou a explicar-nos que de manhã, ainda meio sonolenta, ao ir à cozinha tomar café para então rumar até a escola, havia sido agraciada com o presente. Encima de um cacho de bananas estava o pingente dourado. Ficou tão anestesiada que começou a gritar pela casa a fora: "Achei uma joaninha!! Achei uma joaninha!!!". Os pais um pouco assustados com a algazarra, trataram de arrumar um porta-anel para que ela pudesse guardar para sempre o seu bichinho. Colocaram até uma folhinha de alface para que o coitadinho não morresse de fome. A mãe lhe explicou, ainda, que aquilo era presente da fada dos dentes, que ao invés de lhe botar uma moeda debaixo do travesseiro, havia lhe deixado algo de maior valor. Que era preciso agradecer aos céus antes de dormir, pois aquilo era privilégio de poucas meninas. E que arrumariam, logo ela voltasse do colégio, um aquário com pedrinhas e um mundo de vegetais para que a sua nova amiga pudesse crescer feliz e se multiplicar_ ainda não entendíamos bem como as pessoas e os animais se reproduziam, certamente haveria uma cegonha também para as joaninhas.

Começaram a se espalhar os boatos, os meninos faziam fila para poder ver a raridade. Alguns iniciaram até um comércio lucrativo, cobravam moedinhas às escondidas dos menores para que eles pudessem dar uma espiadela. Não se falava em outra coisa. Os pequeninos começaram a chamá-la de "Janaína" devido a dificuldade de conseguirem dizer joaninha. Eu, por algum motivo que até hoje não sei precisar, aliás, sei sim, mas isso é enredo para o final desta narrativa, não achava assim tanta graça em toda aquela pompa. Mas, ainda assim, não podia esconder minha curiosidade própria da idade, de modo que no intervalo do quarto para o sexto horário, coloquei-me também na fila para poder tirar a prova sobre a veracidade dos fatos.

Deu-se que o que se sucedeu logo após a minha aproximação do aquário mudou definitivamente minha personalidade ao longo dos anos. Talvez hoje entenda que aquele momento foi quase um rito de passagem para que eu pudesse compreender sobre certas coisas da vida, que nunca leria em nenhum livro, ou aprenderia através de alguma professora.

Chegou a minha vez de observar o inseto que a meus olhos já parecia um tanto quanto cansado dos holofotes dados a ele ao longo do dia. Aproximei-me, abaixei para que os olhos alcançassem o aquário, e com a pontinha dos dedos levantei um pouquinho a tampa para que pudesse enxergar melhor. Qual não foi a minha surpresa aquele pequeno serzinho veio voando rapidamente em direção à fresta e na minha tentativa desesperada e desengonçada de não deixá-lo sair soltei a placa de vidro. Aí já havia feito o pior, sem querer estava naquele momento sendo responsável por um sentimento sem volta, tão definitivo quanto a... . Morte. Sim, a joaninha dourada havia sido esmagada de modo que apenas sua cabecinha ficasse para fora do recipiente e o corpo continuasse lá dentro já sem vida, já sem movimento.

Vocês fazem ideia do que significava aquilo na cabeça de uma criança?! [...]

Ps.: Este texto tem apenas meras semelhanças com fatos reais, é uma releitura não apenas de um acontecimento específico, mas de vários ocorridos durante a idade boa da infância. Postarei em breve a continuação, não o faço agora, pois ficará muito extenso para o enquadramento do blog, aguardem as cenas finais. Abraços. Lady Sophia.

Um comentário:

Ana Luiza disse...

Aaah, Janaína... Muito bom o texto, Nanda! Vou virar leitora assidua de seu blog. Saudades..