sábado, 20 de fevereiro de 2010


Pequenos murmúrios saídos da boca floreada de palavrões e insultos vieram encostar seus ruídos aos meus ouvidos tão acostumados à solidão das palavras secas. Fiz-me de desentendida pra me esquivar, espreitando que algo bom viesse logo em seguida, mas não. Continuavam me esperando aquelas doloridas expectativas e o pensamento em comunhão à fala planejavam escondidos pequenas revoluções por meio daquela sujeira que já explodia sem controle pela goela. Gritei sem nenhum controle:

- Quer saber, vai tomar no cu!

- É isso mesmo, quero que você vá para o raio que o parta, quero muito que vá para a puta que te pariu, seu filho de uma ....

Havia quebrado ali um silêncio de anos comedidos em boas citações e lindas histórias em belos livros. Quebrara ali mais do que a minha boa educação, mas o meu domínio sobre algo que eu já nem entendia mais. Perdia-me sem voltas, entregava as minhas rédeas e meu equilíbrio para ele, já tão fatigada e suja que se me dessem um espelho não olharia. Rebaixei ao mais baixo que algo ou alguém tão certa como eu poderia ir. Esgotei-me. E disse por fim, chorando:

- Você me destruiu! Seu cretino!

Ah, mas vocês não acreditariam se estivessem junto a mim olhando para o rosto dele. Ele tinha vencido e sabia disso. Sorria. Um sorriso discreto no canto da boca a me metralhar. A me dizer o quão pequena eu me tornara, o quão insignificante me colocara. Sem esperar mais nada de mim ele saiu andando com um ar de quem ganhou não só a batalha, mas a guerra inteira. Sabia como estava doendo em mim aquelas palavras ditas. A liberdade dada é um buraco fundo e sem saída, confiava tanto nele que até essas minhas obscuridades ele sabia. E por isso mesmo agora se vagloriava de ter-me amputado as pernas e me cortado os pulsos naquela discussão:

- Espero que não volte nunca mais, está me entendendo! É isso mesmo, NUNCA mais!!! - Gritava desesperada -Você não me merece!! Não me merece!! ... Quero que ... Vá pra longe.. Me deixe.. Me escuta, vai se fu...

De dono da situação percebeu que também já não controlava no que eu havia me tornado. Uma mulher aos gritos e aos prantos. Ele também perdera o controle. O semblante foi mudando de forma como uma máscara Veneziana com várias caretas. As mãos já não paravam no lugar e apertaram com força meu braço:

- Ei!!! Você está louca? Que escândalo é esse, assim? Calma, não precisa gritar.. O problema é só nosso e de mais ninguém...

Continuei:

- O problema é nosso é o caralho!!!

As sombrancelhas dele já se levantavam formando um cume encima dos olhos, o rosto foi ficando bem vermelho e o suor já lhe escorria pela ponta do nariz. Segurava-me com força para que eu não me soltasse e como um animal arredio saísse correndo feito uma insana. Dessa fase passou a uma outra a de implorar para que eu parasse que resolveriamos tudo na base do diálogo, e eu gritava ainda mais, e chorava dois rios caudalosos.

- Está tudo acabado entendeu? TUDO ACABADO! Vai procurar outraZinha pra te consolar...

Ele não teve escolha, não teve saída... Puxou-me com força me prendeu contra as suas pernas e me beijou feito um doido, e me segurava, me apertava e me beijava como nunca fizera. Assustei-me, mas depois decidi aproveitar o gozo daquela história ainda aos soluços. Correspondia aos beijos quentes com outros cada vez mais agudos....

Mal sabia eu que essa seria a primeira das muitas brigas que tivemos.


Ps.: É tanta coisa que nem sei...

Um comentário:

Teicianne disse...

Gostei. Profundo hein.