
"Para que eu continue humana meu
sacrifício será o de esquecer?
Agora saberei reconhecer na face
de algumas pessoas que - que elas
esqueceram. E nem sabem mais que
esqueceram".
Clarice Lispector
Parte de mim caiu como vaso de louça.
Espatifado no chão
Revejo os cacos
Na ânsia de catá-los.
Eles já estão frios.
E tão desprendidos de mim
Que tocá-los é como perceber um tecido necrosado
Matéria crua e esbranquiçada
É com asco que vejo a parte que se desprendeu
E a mediocridade faz com que eu não recolha os restos.
Tanto assim,
Que eles germinaram em solo infecundo;
Uma árvore sem frutos.
E eu sem poder compreender
Na calma convulsa da fúria
Desisti de replantá-los na parte avulsa restante
Por isso finjo esquecimentos
Até chegar um ponto de lembrar longe
Que esqueci de uma coisa remota
Que eram cacos desprendidos
Que eram uma vida desorganizada e medrosa
E sem que perceba a árvore solitária
Crescerá fora de mim
Enquanto o resto aqui dentro
Se reproduzirá assexuadamente
E como um apêndice
Se reintegrará à massa lenta do resto do corpo
Até que o quebrado seja apenas uma trinca
Colada pelo tempo
E sem memórias
Tudo cresça vaga e lentamente.
PS.: O que esperar das coisas? Destino...
*Imagem do Carybé.
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