sexta-feira, 29 de maio de 2009

"Hoje tem céu que não acaba mais
esticado até aquele fundo"
Raul Bopp
Luar Espesso
Sei que vêm vindo com ares de mortais
Tensionadas pela lua nova
As rainhas do distrito.
Elas brincam de bonecas
Vestem vestidinhos de pernocas de fora
Umas têm sardinhas
Outra trás trancinhas
Feito uns brinquedinhos
Que aos poucos estão a calejar
Ah essas pequenas...
Os seios pontudinhos
Nas mãos tesas e gorssas deles
Mas tudo parece um jogo
Elas com sorrisinhos inocentes
Eles brincando com suas bonequinhas inesperientes
Quanto aos outros?
É lua nova
E não há mesmo ninguém a se preocupar
As de olhos azuis e cabelos dourados
Parecem estrelinhas
Uns pagam caro só para observar
As rosinhas ainda são novas e vermelhinhas
Prontas para o espinho que vai entrar
Umas choram, outras riem
Soluços, gemidos
O lençol encardido
Ficando todo vermelho de tanto socar
Mas não é nada
É lua nova
E o padre já vai para igreja rezar
A praça vai ficando vazia
Os gavioesinhos vão alçando seus vôos
Os namoradinhos ainda esperam nos bancos
Enquanto os homens rindo para o clarão da lua
Já bêbados de tanto chupar
Descem as escadas
E deixam as pequeninas
Com moedinhas para a pipoca ao namorar
Os botões, já murchos se vestem
E vão encontrar os Fulaninhos nos banquinhos
Fingindo que mal sabem beijar
Mas não tem problema
É lua nova
E estão altas no céu as estrelas a brilhar
As bonitinhas vão de mãos dadas pra casa
Colocam os niqueizinhos na lata
Que é pra amanhã a mamãe almoçar
E dormem... dormem...
Esperando que no outro dia a lua não nasça
Que não seja nem nova, nem cheia, nem linda
Porque é melhor uma vida escura
Do que uma noite com luar.
PS.: Poesia fruto de leituras difíceis, e de uma vida inteira de ansiedades.

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